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PESSOAS COM HISTÓRIA

Liliana Machado 08.08.2018

MENINHA - A ALMA MOÇAMBICANA

 

A viagem começa à beira mar, numa tarde de verão, sábado, o verão é fresco. Mas por nós espera uma viagem por solo quente. Caminhamos a passos largos, quase sempre junto ao mar e larga é também a expectativa. Paramos junto à porta. Tocamos à campainha, a porta abriu-se. Do outro lado uma alma cheia de histórias, daquelas que inspiram. A porta bateu-se nas nossas costas e a viagem começa. Uma viagem à terra quente, onde bate o coração da vida, onde todos os que lá moraram, foram felizes.  

 

Meninha é diferente, porque no seu olhar mora uma mística. Aquele olhar comum de quem viveu e foi feliz em Moçambique. Meninha é diferente, porque é especial. Porque tem história de quem se fez gente a lutar para ser recordada. Meninha transborda de aroma a terra queimada pelo sol, misturada com chuvas quentes de verão. Daqueles aromas que se eternizam na nossa memória.

 

Filomena Santos nasceu em 1943, “em Moçambique, numa aldeia que faz fronteira com a Rodésia, uma aldeia muito pequenina”. O pai trabalhava nos caminhos de ferro no tempo da Companhia Inglesa e, por isso, “era sempre transferido de um lado para o outro. A irmã mais velha, por exemplo, nasceu na Beira e foi para lá que voltaram mais tarde, quando Meninha tinha seis anos. Os pais nasceram em Portugal. Aos 14 anos, o pai foi para Moçambique ter com o avô de Meninha que “foi o primeiro polícia sinaleiro da Beira”. Meninha lembra que “os pais já se conheciam daqui” e que a história de amor culminou em Moçambique, onde casaram e tiveram 4 filhos.

 

Cresceu em tempos difíceis, numa altura em que havia “dois pares de sapatos: um era para a semana e outro para ir à missa”. Cresceu a brincar misturada com uma cultura diferente da cultura portuguesa. Cresceu moçambicana, sem sentir a diferença. Diz que ela própria sempre foi diferente: “sempre fui maria rapaz, mais refilona, malandra, gostava de brincadeiras mais aventureiras”. Recorda as “corridas de motas, da primeira vez que as vi” e a emoção que sentiu. Os olhos brilham com esta lembrança.

 

Na adolescência a irreverência não esmoreceu e entre a natação e o basquetebol, ainda havia tempo para o canto e, diz orgulhosa, “cheguei a cantar com o Carlos Guilherme, o cantor lírico, no Pavilhão da Mocidade Portuguesa. Cantava, ainda, todos os sábados, na rádio da Beira”.

 

Numa era fechada às mulheres, Meninha diz que nunca se sentiu discriminada e que fazia “tudo o que os rapazes faziam”. Nem o casamento, em 1966 a impossibilitou de participar no rally. Era o rally feminino e Meninha conduzia um Datsun. Diz que era “uma maluca” e sempre adorou conduzir. Ficou em primeiro lugar numa das edições dos rallys femininos. Eram rallys em estradas de areia. Mais difícil e mais perigoso. Ao gosto da Meninha.

 

Trabalhava no Banco Nacional Ultramarino e, em Abril de 1975, veio para Portugal, forçada pelo palco político da época. Diz que “foram os tempos mais difíceis” e que, de repente, a vida que sempre conheceu acabou. “Havia uma vida em Moçambique e outra vida em Portugal”.

 

Em Portugal sentiu o que era discriminação e conta um episódio que demonstrava o desconhecimento da sociedade portuguesa da época face aos ‘retornados’: “muitas vezes diziam-me, admirados, como era possível ser moçambicana e ser branca”.

 

Foi-lhe difícil estabelecer-se em Portugal. No emprego, acabou transferida para o Banco Ultramarino em Portugal, mas para um lugar que não era o seu. Ainda assim, relembra, os colegas portugueses “acusavam-me de roubar o lugar deles. Caí muitas vezes, mas nunca olhei para trás. Porque eu sou corajosa, levantava-me e seguia sempre em frente”. Foi em Portugal que descobriu um dos sentimentos mais bonitos - a maternidade, foi mãe de uma menina, hoje mulher inspirada pela história de Meninha e influenciada pelos princípios de liberdade e igualdade da mãe.

 

Desde que voltou de Moçambique, naquele Abril de 1975, nunca mais voltou ao seu lugar. Diz que “é muito saudosista”... um sentimento comum a quem nasceu, cresceu e viveu em Moçambique, a quem sentiu o cheiro “das chuvas quentinhas junto ao mar”.



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