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Férias (sus)tentadoras

Hélia Saraiva 20.08.2018

As fruições turísticas podem ser entendidas e vividas de diferentes maneiras, porque na qualidade de fenómenos culturais, económicos e históricos estão ligadas a variáveis relativamente indeterminadas. Os espaços destinados abarcam inevitavelmente as marcas das relações sociais que potenciam. Por conseguinte, não ditam abordagens inflexíveis nem monolíticas das atividades realizadas pelos turistas permitindo um certo criticismo a alguns dos comportamentos adotados no passado, pelo facto de terem produzido consequências danosas para o ambiente.

Este ano decidi gozar, na condição de fruidora de férias e de turista, de acordo com o mote de desfrutar prolongadamente das experiências prazenteiras da época, sinalizar a minha presença pelos locais visitados através do efémero relevo das toalhas de praia cuidadosamente estendidas para acomodar o meu estiramento preguiçoso sob o sol, assim como as pegadas nas areias calcorreadas. No seguimento dessa decisão, optei por combinar o meu desejo de cruzar um soalheiro “far niente” com uma vontade altruísta traduzido em participar numa ação de recolha de resíduos de uma praia.

Acerquei-me da orla no dia agendado. O mar estava vagamente encrespado e as suas ondas espumosas impregnavam rapidamente a beira-mar. Avistei pranchas de windsurf a suportarem indivíduos apoiados nos pés, a segurarem o aro da vela enfunada com os braços estirados como arqueiros preparados para lançarem flechas cortantes e deslizantes sobre a água. No entanto, a única lâmina pontiaguda que efetivamente vi foi a que encaixei na vara confecionada para espetar os detritos existentes no areal e que deveriam ser engolfados pelas ondas. Essa intenção repetiu-se nos gestos de alguns dos meus colegas pertencentes à coleta voluntária de resíduos pretensamente estivais. Além das mencionadas ponteiras afiadas foram distribuídas luvas resistentes e sacos destinados a acolherem a recolha.

Á primeira vista, a praia parecia razoavelmente limpa, contudo as nossas ferramentas forneceram-nos um olhar extra estimulando-nos a distinguir embalagens de leite achocolatado semelhantes a  delgadas algas de tom azeitonado, pontas de cigarros dentro de conchas, invólucros de bolachas semienterrados na areia, pedaços de vidro toscamente polidos, outrora integrados em garrafas de refrigerantes, além de substâncias ressequidas, fedorentas, disformes e esponjosas rapidamente sujeitas ao gume da vara bicuda.

Surpreendeu-me a quantidade e a variedade de detritos encontrados. Não obstante, essa estupefação e indignação inicial foi substituída por uma grande admiração pela quantidade de pessoas que se nos juntaram a trabalhar laboriosamente na limpeza. Pertenciam a inúmeras gerações e algumas delas ofereceram-nos copos com água fresca adensando a sensação de pertença a um grupo unido por causas ambientais, ecológicas, sustentáveis entrelaçadas pelo desejo de aprimoramos a nosso lar comum: o planeta Terra.

As horas despendidas nestas tarefas passaram num abrir e fechar de olhos ao qual se seguiriam queixos caídos, exclamações e olhares arregalados junto do local de deposição das inúmeras bolsas repletas de material desleixadamente abandonado no areal pelos autodenominados “praiófilos”.

Terminado o labor intenso, alguns funcionários camarários procederam à remoção e transporte dos sacos nuns carrinhos de mão posteriormente guardados numa camioneta. Seguiu-se o ato de desluvamento e de higienização, considerei-me amplamente recompensada porque conheci pessoas solidárias, um convite para participar num workshop de turismo sustentável (um campo de ação que considero pertinentíssimo) e um útil Manual de Implementação do EMAS no Sector da Hotelaria, que ajudará a amplificar as minhas aprendizagens.

 


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