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Contracapa, página 1

Ana Marinho da Silva 01.10.2018

Desde pequena que me habituei às histórias. As do meu passado, as anteriores ao meu nascimento, as das pessoas com quem convivo. As que me ajudaram a definir a pessoa que hoje escreve esta rubrica.

Os homens nascem storytellers, com a necessidade de contar aos outros o real e o ficcional das suas vidas. Crescemos na narrativa dessas histórias, no clímax de cada aventura, no desfecho de cada discussão, na conclusão de cada ideia. Crescemos com contos que nos fizeram vibrar a cada palavras e que foram, inúmeras vezes, o nosso refúgio do mundo real. Os que ouvimos, os que sentimos, os que vimos e os que lemos. É por essa razão que, na minha opinião, para além de sermos Homo Sapiens somos Homo Narrans.

E é assim surge a “Contracapa”, a nova rubrica da página RJP. De duas em duas semanas, às segundas, pretendo presentear-vos com sugestões de alguns dos livros da minha vida. Prometo tentar não repetir autores e apresentar-vos uma lista o mais diversificada possível.

As pessoas que me conhecem já devem saber quem é o autor desta primeira rubrica. Para mim não faria qualquer sentido dar início a um novo ciclo sem ser com o escritor que possuí a capacidade de me fascinar e fazer apaixonar mais e mais por cada livro seu. E para mim faria ainda menos sentido se eu não começasse pelo livro que me introduziu no seu mundo.

Haruki Murakami, o japonês que sabe explorar as profundezas da alma humana em cada texto que escreve. Eis o escolhido para a primeira página da contrapa. Devo admitir que nem toda a gente gosta do escritor. Consideram que exagera nas realidades paralelas, nos sonhos, nos fins abertos. Eu gosto de Murakami pela forma como me deixa no final de cada livro, pelas questões que me levanta (deste e do outro mundo), como me deixa a pensar e a refletir sobre cada excerto, por me ensinar tanto sobre música e, é claro, sobre a cultura japonesa, pela maneira como escreve, suave, fluída. Para mim, é dos raros autores que me deixam a sentir o mesmo que os seus personagens. Só isso já significa muito para mim.

2014 foi o ano do nosso primeiro encontro. Uns grandes amigos ofereceram-me um livro dele no meu aniversário. Era a primeira edição, acabadinha de sair no mês dos meus anos. Só isso já era um indício da longa relação amorosa que acabei por construir com Murakami.

“No seu segundo ano de faculdade, entre julho e o mês de janeiro seguinte, Tsukuru Tazaki só pensava em morrer.”

Estas foram as primeiras palavras que trocamos. Tudo começou com “A peregrinação do rapaz sem cor”.

Tsukuru Tazaki era amigo de quatro rapazes, todos com nomes que faziam referência a diferentes cores. Aka (akai = vermelho), Ao (aoi = azul), Shiro (shiroi = branco) e Kuro (kuroi = preto).

 A ele chamavam-lhe simplesmente Tsukuru.”

 Ele era o rapaz sem cor. Discreto, com notas acima da média, mas sem interesse pelo estudo, bem parecido (apesar de não se considerar nada de especial), pouco sociável e completamente apaixonado por estações de comboios. Este é o protagonista da história, cujo nome, em japonês significa “fazer”, o que, para mim, dá uma graça tremenda a toda a narrativa pela relação que o verbo tem com a personalidade e profissão de Tsukuru (engenheiro).

No livro, fascina-me a metáfora das cores e dos nomes que tão bem se relacionam com as personalidades das personagens. As reflexões interessantes sobre as estações de comboio e de como as mesmas se assemelham à vida, porque a vida é um comboio e “se não houvessem estações, os comboios não paravam” e a vida passava num abrir e fechar de olhos, a alta velocidade. A importância das cidades. O papel da mágoa e do passado. As relações e as separações. A sátira genial à estrutura empresarial japonesa através da personagem de Ao.  A paixão por Sara. Os sonhos violentos e eróticos.

Tudo no livro é real e surreal, numa proporção de 50-50, em que tudo o que é real tem uma componente inversa, um mundo paralelo.

São 362 páginas de leitura fácil, em que apanhamos o comboio expresso do início ao fim do livro e não o queremos largar por nada. Acho que este é o efeito Murakami, entramos numa dimensão em que deixamos tudo o que temos de fazer e desfrutamos da leitura que nos proporciona.

Para terminar, deixo-vos o resumo do livro que, como é óbvio, se encontra na contracapa: “Nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Agora, com 36 anos feitos, é engenheiro de profissão e projeta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Lá está ele na estação central de Shinjuku, ao que dizem «a mais movimentada do mundo», incapaz de despregar os olhos daquele mar selvagem e turbulento «que nenhum profeta, por mais poderoso, seria capaz de dividir em dois». Leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome. A entrada em cena de Sara, com o vestido verde-hortelã e os seus olhos brilhantes de curiosidade, vem mudar muita coisa na vida de Tsukuru. Acima de tudo, traz a lume uma história trágica, que a memória teima em não esquecer. Os quatro amigos de liceu, donos de personalidades diferentes e nomes coloridos, cortaram relações com ele sem lhe dar qualquer explicação. Profundamente ferido nos seus sentimentos, Tsukuru perdeu o gosto pela vida e esteve a um passo da morte. A páginas tantas, lá conseguiu não perder a carruagem. Com "Os Anos de Peregrinação" de Liszt nos ouvidos, regressa à cidade que o viu nascer e atravessa meio mundo, viajando até à Finlândia, em busca da amizade perdida. E de respostas para as perguntas que andam às voltas na sua cabeça e lhe queimam a língua. Será que o rapaz sem cor vai ser capaz de seguir em frente? Arranjará finalmente coragem para declarar de vez o seu amor por Sara? Uma inesquecível viagem pelo universo fascinante deste escritor japonês que chega a milhões de leitores espalhados pelo mundo inteiro. Um romance marcadamente intimista sobre a amizade, o amor e a solidão dos que ainda não encontraram o seu lugar no mundo.”

“A peregrinação do rapaz sem cor” foi o meu primeiro contacto com o escritor, mas depois desse livro veio a leitura de tantos outros. Fica a minha opinião pessoal de 3 que considero de leitura obrigatória: “Kafka à beira-mar”, “Sputnik, meu amor” e “A sul da fronteira, a oeste do sol”. Para quem quer uma leitura mais rápida, sugiro o conto “Sono” que me fascinou pelas imensas semelhanças que encontrei para com a personagem.

Boas leituras.


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