viver

Contracapa, página 2

Ana Marinho da Silva 15.10.2018

“Big brother is watching you”

Certamente, já toda a gente ouviu esta expressão e a grande maioria reconhece o livro da sua origem. Na Contracapa de hoje temos George Orwell com o tão conhecido 1984.

Já me falavam deste livro há anos e só este verão é que decidi lê-lo. Li-o tarde e ao mesmo tempo acredito que o li na altura certa. Tarde, porque é um livro extremamente popular, que já foi tão discutido, tão comentado. Na altura certa, porque fez todo o sentido para mim nesta fase da minha vida, indo muito de encontro a diversas questões (claramente, intemporais) à nova era que vivemos, relacionando-se com muitas matérias com as quais tenho convivido na universidade.

O livro, no início, não se entrega totalmente ao leitor. Quem o lê vai-se apercebendo que aos poucos e poucos a história vai crescendo, melhorando, viciando mais. Dei por mim a levar uma leitura completamente normal no início do livro, questionando-me até “porque é que toda a gente fala tão bem disto?”. Até que a normalidade se foi quando cheguei à segunda parte… e percebi que nada faria sentido sem a primeira - que acabei por desvalorizar e que agora faço questão de reforçar que é extremamente importante.

Para mim, o que fez deste livro brilhante foi o seu desfecho. Tão inteligente, tão bem conseguido e que me deixa em êxtase de cada fez que o refiro. Provavelmente dos meus finais preferidos de todos os livros que li.

1984 não é um livro como outro qualquer. É um livro intemporal, mas diferente de todos os intemporais. Não tem pontas soltas, tudo é explicado, tudo tem a sua razão de ser, tudo se assemelha muito à realidade. Quando o Orwell o escreveu, em 1949, tudo o que se passa no livro já existia e agora, em 2018, ainda é atual. Existe uma forte dimensão de delírio que está presente no mundo em que vivemos.

Apesar de ter uma forte componente política, uma vez que o autor pretendia criticar o socialismo e tocar em questões como a liberdade, o medo, a rivalidade entre nações, o domínio do pensamento e o controlo de ideologias, acabei por criar uma relação entre o Grande Irmão e a Internet.

Na nova era digital em que vivemos, a quantidade de informação disponível é tanta que se torna difícil distinguir o verdadeiro do falso, encontramos uma enorme falta de controlo na confidencialidade dos dados que fornecemos, vivemos de aparências, confundimos opinião pública e opinião publicada, perdemos autenticidade. Grandes representantes políticos utilizam as redes sociais para criticarem outras nações, outras pessoas de poder. Usufruem da propagação rápida para intimidar.

Mas afinal, quem somos nós nesta nova era? Assim como no tempo da história, prevalece a censura ainda que disfarçada, prevalece a felicidade induzida pela estupidez, a ignorância, o medo de ir contra a opinião das maiorias. Atualmente o que uns olham, outros observam, o que uns ouvem, outros escutam. Tal como em 1949. Tal como em 1984.

Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força e 2+2 será sempre 5 quando o amor pelo Grande Irmão for maior que o amor próprio. O livro de Orwell jamais será um livro do passado. Será sempre do presente.

Aproveito para agradecer a Orwell pela criação da personagem O’Brien que foi, para mim, a chave de toda a história.

Na contracapa (edição da Antígona) não encontramos um resumo, mas sim um comentário de João Bernando: “Curioso percurso o desta alegoria inventada para criticar o stalinismo e invocada ao longo de décadas pelos ideólogos democráticos, e que oferece agora uma descrição quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização em que passaram a assentar as democracias capitalistas. A electrónica permite, pela primeira vez na história da humanidade, reunir nos mesmos instrumentos e nos mesmos gestos o trabalho e a fiscalização exercida sobre o trabalhador. Como se não bastasse, a electrónica permite, e também sem precedentes, que instrumentos destinados ao trabalhão e à vigilância sejam igualmente usados nos ócios. É graças À unificação de todos os aspetos da vida numa tecnologia integrada que a democracia capitalista pode realizar na prática as suas virtualidades totalitárias. O Big Brother já não é uma figura de estilo – converteu-se numa vulgaridade quotidiana. O facto de este livro continuar actual, apesar da erosão interna dos regimes stalinistas e da sua derrocada final, mostra que a História não segue em linha recta mas em elipses, quando não desenha até labirintos. São múltiplos os percursos que unem, tantas vezes através de atalhos inesperados, as várias modalidades do capitalismo; e as formas mais totalitárias, que durante algum tempo foram postas em prática pelo capitalismo de Estado soviético a pretexto da libertação do trabalho, são hoje prosseguidas e agravadas pelo neoliberalismo a pretexto da libertação dos mercados.”


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