viver

Poesia na passadeira

Hélia Saraiva 30.12.2015

A travessia da passadeira desassossegou-me. Recordou-me a inquietude surgida da eminência de um perigo real ou alegórico. Surgiu a pergunta: qual é o perigo ou, dito por outras palavras, medo ocasionado por quê? A resposta não estava à minha frente, nem nas minhas memórias, uma vez que o pisei. Sim, pisei-o. Cobri o medo alvo com uma das botas negras que calçara naquela manhã. Porém, a alvura da sua grafia reluzia entre as faixas da passadeira, desafiando o meu olhar. Aceitei o repto e enfrentei-o. Afastei a bota, dando um passo atrás, a fim de aumentar a perspectiva e relembrei que o medo, a palavra medo, constituía o corpo dos versos integradores do poema “Se um dia a juventude voltasse” da autoria de Al Berto.

Desse modo, compreendi a amplitude trifásica do receio, pois a conjuntura remete para três receosas preocupações:

- a(s) angústias amedrontante(s) do tempo em que vivemos;

- a ansiedade motivada pela antecipação da medrosa perda, quer do amor, quer da lucidez;

- o temor de fi(n)ar, isto é de ficar privada de vitalidade e de sedentarizar.

O som das buzinadelas provocadas pelos automobilistas impacientes pela minha demora na passadeira “acordaram-me para a vida”. Lembraram-me a outra face da contemplação, ou seja, a atitude de dar o passo seguinte após o ato contemplativo: enfrentar o medo da página em branco, refletido durante a travessia da “zebra”. Sem deixar de repetir para mim mesma que a apreensão e o mal-estar provocado pela brancura das páginas vazias são combatidos através da escolha em não a abandonar nem tapar, mas em aceitar o seu convite criativo. Repetia este conselho para mim própria, em silêncio, enquanto caminhava em direcção à próxima rua onde me esperavam mais passadeiras.

 

Autor da fotografia: Carlos Filipe Saraiva


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