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Contracapa, página 6

Ana Marinho da Silva 10.12.2018

Eça sempre foi um dos meus escritores prediletos. O primeiro contacto passou pelos Maias, que me deixou completamente fascinada, levando à leitura de outros livros da sua autoria. Por tamanha importância que o escritor português representa para a literatura lusófona, mas também para mim, acabei por decidir trazer à Contracapa de hoje o “Crime do Padre Amaro”. Esse livro tão polémico e que deu origem ao filme ainda mais polémico. Pessoalmente, foi uma pena terem criado um filme mediano para um livro tão genial. Acho que as pessoas acabaram por atribuir uma carga erótica exagerada à história, quando no fundo tem um enredo muito simples, com uma prosa tão bela. Comprova-se o que sempre disse: um livro é um livro, um filme é um filme e tal como azeite e vinagre, não se misturam.

“Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.”

É devido a este acontecimento que a Amaro aparece. O novo pároco, com uma promessa juvenil que alegra as pessoas de Leiria. Fica hospedado na casa de S. Joaneira que possui uma belíssima filha de nome Amélia, apelidada de Ameliazinha (tão típico do povo português estes inhas e inhos). Entram num jogo de sedução, ao início retraído por ambos, pelo facto de ela ser comprometida e de ele ser padre, mas que resulta num amor intenso e doentio. Deste amor, nasce um filho, cuja vida é curta, como prova de que tudo entre eles seria efémero.

Li algures que Eça arriscou com a condenação do celibato eclesiástico, não só por criticar órgãos de poder, mas por abordar um tema que levaria a um romance medíocre. Sou totalmente contra esta opinião. A condenação à hipocrisia e o papel anticlerical acompanha toda a história, mas o livro ultrapassa em muito os cânones da doutrina. É uma construção perfeita de um conjunto de personagens tão reais, de problemas tão presentes, de um romance tão patológico que causa dependência como se fosse uma droga.

Foi um livro cuja história me incomodou e fascinou. Foram 480 páginas a desprezar o padre Amaro, a criticar a ingenuidade de Ameliazinha e ao mesmo tempo a ter pena dela, a adorar a S. Joaneira, a rir-me de um povo tão bisbilhoteiro (e tipicamente português), a revirar os olhos a um grupo de poder tão hipócrita, mas acima de tudo a apaixonar-me por todo o dramatismo e romantismo do enredo. Os ismos de Eça são sempre maravilhosos, nunca me falharam.

E depois de um turbilhão de emoções, o livro termina com “o homem do Estado” e “os dois homens de religião” a gozarem “de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país”. Porque depois da tempestade, vem a bonança.

“Vejam esta paz, esta prosperidade, este contentamento.”

Vejam o quanto a hipocrisia se mantém presente nos dias de hoje.

Vejam o quanto Eça é genial.

Na contracapa da coleção de Eça do Planeta De Agostini fica “O pároco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga de um Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então, por cima, sobre o tecto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tic-tic das botinas de Amélia, e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.”


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