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Contracapa, página 7

Ana Marinho da Silva 24.12.2018

A contracapa de hoje é especial para mim, não só por ser véspera de Natal, mas porque o livro que trago hoje foi o que me fez apaixonar pela leitura quando era mais pequena. Foi graças a este livro que me tornei uma leitora insaciável.

Cresci com o estímulo constante, por parte dos meus pais, de ler e ouvir histórias, imaginar mundos desconhecidos, conhecer personagens diferentes de mim, de ser curiosa. Mas esta paixão pelos livros ganhou significado com o que vos apresento hoje.

Tudo começou quando tinha 8 anos. Sempre fui boa aluna com português, por isso ler e escrever era uma diversão para mim (falar então nem se fala). Tinha um amigo muito próximo, da mesma idade que eu, que andava comigo desde a pré-escola e que era praticamente meu vizinho [5 minutos a pé e estávamos na casa um do outro] e foi ele que me ofereceu este livro nos meus anos.

Querem adivinhar quando é que o li?

No período de férias de Natal.

O livro de hoje é um clássico infantil da autora Noel Streatfeild que nasceu precisamente na véspera de Natal de 1895. Faria hoje 123 anos, por isso a contracapa é dedicada a ela como um agradecimento por ter escrito o livro que me fez apaixonar pela literatura.

Noel Streatfeild disse um dia que “Sapatos de Ballet” era na realidade um conto de fadas com os pés a meio caminho do chão. Uma descrição maravilhosa para um livro mágico.

“Sapatos de Ballet” conta a história de 3 raparigas órfãs: Pauline, a única sobrevivente de um naufrágio; Petrova, que era filha de um casal russo; e Posy, que era filha de uma bailarina. Foram todas adotadas pelo Tio-Avô Matthew [TAM] que desaparece quando vai uma viagem de barco “antes de alguma delas ter idade suficiente para se lembrar dele (…) Fora, no entanto, de máxima importância nas suas vidas”. Com o desaparecimento do tutor, ficam aos cuidados de Sylvia (sobrinha-neta) e Nana (ama) e vivem numa grande pobreza.

Todas sabiam muito bem o que queriam ser quando crescessem. Pauline queria ser atriz, Petrova queria algo relacionado com carros e motores e Posy queria ser como a mãe biológica, bailarina.

As 3 são as irmãs Fóssil, apelido que se deve à coleção de alguns dos mais admiráveis fósseis de TAM, e juntas ambicionam que esse mesmo apelido fique na História.

É uma história cor de rosa, tal como a capa do livro. Ainda que as raparigas tenham um começo triste, com muitas dificuldades e adversidades, toda a narrativa alimenta-se de esperança e sonhos.

Pauline participa nas audições para o papel de Alice em Alice no País das Maravilhas. Consegue ficar com a personagem, mas a fama sobe-lhe à cabeça, tornando-se arrogante para todos os que a rodeiam. Isto faz com que ela perca o papel para a sua rival levando a uma lição de humildade. Acaba por assinar contrato por um estúdio nos Estados Unidos concretizando assim o seu sonho de ser atriz.

Posy tem um talento enorme para ballet. Madame Fidolia, professora numa escola de bailado, reconhece esse talento e começa a ensiná-la. No entanto, Fidolia sofre um AVC e Posy segue o seu caminho sozinha. Acaba por receber uma bolsa de dança.

Petrova tinha aulas de dança, apesar de achar aquilo um aborrecimento. A sua salvação era quando ia para a garagem, vestia o fato macaco e trabalhava. Adorava assistir a corridas de carros ou motas, mas o que amava eram os domingos de voo. Era a melhor com números e consegue mesmo realizar o seu sonho de ser piloto de aviões.

3 irmãs que possuem gostos e personalidades distintas dão uma magia inexplicável a toda a narrativa. É mesmo um conto de fadas. Ninguém o poderia ter feito melhor que Noel. Toda a história transmite a mensagem de que tudo é possível quando gostamos mesmo de algo. Quando terminou o livro, a minha mini-eu de 8 anos soube que podia ser quem quisesse, mas com os anos quis ser mais do que mil e uma coisas. Ainda hoje me encontro num processo de descoberta daquilo que quero ser e continuo a querer mil e uma coisas, mas uma coisa é certa: aquele livro nunca mais saiu do meu coração e a mensagem que transmite acompanha-me todos os dias, porque é verdade – os sonhos não são impossíveis.

Neste Natal, nesta época de sonhos, lembrem-se sempre que podem ser quem querem ser. A vida não diz não aos sonhadores, apenas coloca obstáculos para ter a certeza que estamos no caminho certo. E se estivermos, nenhum obstáculo chega para nos parar.

Sonhem. É isso que alimenta a vida.

À Noel Streatfeild um feliz aniversário e um gigante obrigada por ter sido o livro de viragem da minha vida. O vício começou graças a ela e isso jamais esquecerei.

Feliz Natal a todos e desejo-vos vários livros debaixo da árvore, porque não existem incitadores de sonhos iguais a eles.


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