viver

Superstições

Ana Marinho da Silva 30.12.2015

Meses difíceis. É disso que se trata. Quem nunca teve o karma apurado durante tempos infinitos, não sabe o verdadeiro significado de sorte.

Não sou uma pessoa de superstições. Gosto de gatos pretos, tal como gosto dos restantes, mas simplesmente sempre tive medo destes felinos. O meu lucky number é o 13 ou não sofreria de triscaidecafobia. Se este número for um dia e calhar a uma sexta-feira, melhor, apenas tenho umas agradáveis crises de parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia e tiro o dia para ficar fechada em casa a ver séries, se estas não começarem a reproduzir vídeos como a cassete do “The Ring” e me sair a mulher do raio do poço (arrepios, tantos arrepios).


Ouço um estrondo da casa de banho, vou a correr ver o que se passa e deparo-me com o meu espelho partido. Ah ótimo, 7 anos de azar nesta casa… ou não teria a minha irmã mais nova decidido fazer o teste do “Bloody Mary” em frente ao maldito espelho, trancada naquela mini divisão da casa. Questionei-lhe se tinha repetido três vezes, disse-me que não, pois se tinha assustado com uma aranha no cabelo. Pensando bem isso é ótimo, ela deveria saber que aranhas é sinal de dinheiro. Até podemos não ficar ricas (pois temos 7 anos de azar pela frente), mas ao menos ela não ficou sem pescoço – bato três vezes na madeira da porta, acho que isso do “Bloddy Mary” é treta, mas pelo sim, pelo não é melhor afastar os maus espíritos -   Aposto que estava a usar a pata de coelho que o nosso pai lhe deu quando fez 13 anos. 


Senti as orelhas quentes… gostava de saber quem está a falar mal de mim. Mas o meu pensamento é interrompido pelo som da campainha. Espreito pela porta e reparo que é a chata da minha vizinha. Vou buscar a vassoura, viro-a ao contrário e coloco-a encostada à porta. Passado poucos segundos ela vai embora. O meu método é infalível. Desde que ela arruinou a minha vida amorosa, que não lhe falo. Imaginem vocês que me varreu os pés… sabem o que isso significa, certo? Varrer os pés a uma pessoa faz com que ela nunca se case. Logo eu, que sonhava que no dia do meu casamento o meu noivo só me iria ver no altar. Sim porque ver antes da cerimónia dá azar! Eu ia entrar na igreja com o pé direito para que tudo corresse na perfeição… “mana, vai buscar pão antes que comece a chover mais”.
Ok, pensamento arruinado pela pirralha “já vou, já vou…”. Pego no guarda-chuva e o maldito abre-se antes de sair de casa. Hoje o meu dia está com uma sorte louca. Será que devo sair de casa?


Abrindo a porta e eliminando os meus pensamentos menos agradáveis, lá fui eu buscar pão. Como é óbvio, chove imenso, porque sempre que saiu à rua, S. Pedro faz questão de me dar as boas vindas. À porta do meu prédio estava o eletricista em cima de uma escada a arranjar luzes da entrada, não tinha outra solução do que passar por baixo da escada. Inspirei fundo e lá fui eu… Meu Deus, estou mesmo com tanto azar. O que é que falta? Cair-me um piano em cima? Credo, isso é que não. Diabo seja cego, surdo e mudo.


Entrei na padaria e reparei numa senhora que tinha colocado a sua mala no chão. Será que não sabe que significa perder dinheiro? Quero dizer, ela vai gastar dinheiro, visto que também veio comprar pão.


Na minha ida para casa fui pensando em tudo o que me aconteceu hoje. A minha família sempre foi de superstições, mas eu sempre disse que não o era. No entanto, ponderando em tudo o que se passou reparo que é algo que me é inato. Será toda a gente assim? Certamente toda a gente bate três vezes na madeira, nem que seja por raros momentos. Engraçado como fui criada neste ambiente. Os meus pais tentaram-me sempre afastar das energias negativas e dos espíritos e eu sempre tive medo dessas coisas. A minha irmã não… experimenta tudo para comprovar que é treta e afirma que o karma é o nosso melhor amigo. Será? Olho para o chão. Um trevo de quatro folhas. Sorrio, afinal o azar não dura para sempre. 


Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário