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Contracapa, página 8

Ana Marinho da Silva 07.01.2019

A entrada num novo ano deixa-nos sempre com esperança de que mudanças positivas virão, de que “este ano é que é” e que tudo aquilo que não foi feito no ano anterior finalmente será concretizado. Eu era muito assim, agora já só peço que o que este ano me reserva possua mais coisas boas que más e que saiba lidar com o mais negativo, que amadureça, que aprenda, que seja feliz. Deixei de fazer previsões para o futuro há relativamente pouco tempo e um grande impulsionador disso foi o escritor que decidi trazer à primeira rubrica da Contracapa de 2019.

Desisti das conjeturas quando percebi que as carrego com grandes expectativas, o que levava a desilusões tremendas. Parei também quando percebi que há pessoas que o fazem com muita mais graça e sabedoria do que eu. Enquanto estudante, toda a minha vida académica ouvi imensos professores a afirmar que “é impossível prever o futuro” o que, inevitavelmente, me fez criar um interesse particular sobre o tema. Ainda mais inevitável foi a certeza que o “futuro” acarreta: só o conseguimos perceber se olharmos para o passado. É por essa razão que Yuval Noah Harari teve um impacto tremendo na minha vida, tanto com o livro “Homo Deus: História Breve do Amanhã” como o “Sapiens: História Breve da Humanidade”. Um livro sobre o futuro, outro sobre o passado e um terceiro que ainda não li (mas que desejo muito ler) que é “21 Lições Para o Século XXI”.

Como não me consegui decidir entre qual dos livros sugerir, falo dos dois. Por qual começar? Como é óbvio, pelo passado. O “Sapiens” é um manual de conhecimento. Quando o terminei, fiquei fascinada pela quantidade de informação nova que tinha acabado de adquirir com as suas 486 páginas. Quem me conhece sabe que sou uma rapariga de letras, artes, cultura, mas tenho um bichinho pela ciência que dificilmente sairá de mim. Encontrar um livro que combine o melhor dos dois mundos é como um diamante em bruto. Fascina-me, fascina-me e fascina-me.

A nossa vida começou com um momento-chave: o Big Bang. Um fenómeno cujos cosmos e todo o universo associamos à física. Posteriormente, vieram os átomos e as moléculas e todas as suas interações que encarregamos à química. Com toda a combinação de moléculas, surgiram os organismos, cuja história chamamos biologia. Estes organismos foram-se desenvolvendo, socializando, evoluindo. Australopitecos, Homo Habilis, Homo Erectus, Homo Sapiens Neandertal, Homo Sapiens Sapiens. Formaram estruturas elaboradas a que chamamos culturas e que são um elemento chave daquilo que conhecemos como história. Esta história que todos nós conhecemos, foi moldada por três importantes revoluções: a cognitiva, a agrícola e a industrial. E estas três já passaram por várias evoluções, com grande foco na última, onde já nos encontramos no conceito de “indústria 4.0” devido a toda a transformação digital que presenciamos atualmente e que se relaciona em muito com o futuro e, portanto, com o “Homo Deus”.

É incrível folhear as páginas de “Sapiens” e perceber o quanto evoluímos durante todo este tempo. Seja em termos físicos, cognitivos, emocionais, económicos e financeiros. Pessoalmente, valorizo muito o cognitivo. Foi graças à mudança do pensamento e do nosso cérebro que criamos todas as estruturas industriais e económicas possíveis de criar um presente e idealizar um futuro. Dominamos o fogo. Criamos a educação, porque percebemos que os humanos nascem subdesenvolvidos e que podem ser educados e socializados de forma mais profunda do que qualquer outro animal, porque apesar de todos os animais possuírem uma linguagem, a nossa é espantosamente maleável, que nos permite produzir uma quantidade infinita de frases, cada uma com um significado distinto. Permite-nos absorver, armazenas e comunicar um “prodigioso manancial de informação sobre o mundo que nos rodeia”. Possuímos a capacidade de interligar e fazer associações muito mais complexas do que qualquer outro. É isto que torna a nossa espécie tão especial. Somos capazes de aprender, memorizar e comunicar.

É incrível perceber o quanto crescemos enquanto sociedade. Como nos organizamos, como o dinheiro mudou ao longo do tempo, desde búzios às notas que hoje conhecemos, como exploramos o mundo e possuímos esta curiosidade de viajar e conhecer novas pessoas, de socializar, desde o cruzamento de espécies, como criamos estruturas políticas, impérios, hábitos, tradições, como inovamos e descobrimos, desde os caminhos de ferro às novas tecnologias, como nos ligamos à religião. No entanto, o que mais me fascina nisto tudo é perceber o quão pequenos somos enquanto pessoa individual e quão ignorantes seremos sempre, apesar de tudo o que já descobrimos e criamos. O mundo é um lugar maravilhoso, mas cheio de mistério, com um futuro que é uma grande incógnita.

Sobre o futuro, ou se preferirem, sobre o “Homo Deus”, gosto principalmente da ideia de “dataísmo” e da ascensão da internet. Apesar de não concordar com toda a hipérbole na narrativa, nem com a opinião de que os organismos são como algoritmos que processam dados e que, por isso, a vida não é mais do que um processamento de dados… Acho que existe muito mais do que uma componente lógica na nossa vida, tal como referido no “Sapiens” e por muito que a tecnologia venha a assumir um papel cada vez mais relevante no nosso dia a dia, nunca conseguirá dominar. Agora, o facto é, este admirável mundo novo digital tem alimentado um ser antropocêntrico que procura a imortalidade, o poder, a felicidade. Um ser que procura tornar-se numa espécie de super-homem. No entanto, é um livro sobre o futuro, um livro de incertezas e previsões, por isso levantam-se muitas questões sobre as quais os leitores ficam a refletir e que guardam consigo à procura de resposta. Questões muito associadas à morte e à vida artificial. Conquistamos tanto até hoje, mas o que nos reserva o amanhã?

Mas uma coisa é certa: seremos sempre storytellers e viveremos sempre cheios de dúvidas. Acho que é uma das componentes obrigatórias para se ser humano: ter poucas certezas de alguma coisa.

Querem saber outra coisa que tenho a certeza? Que ler estes livros são uma mais valia para qualquer pessoa. Não só para enriquecer os seus conhecimentos, como para trabalhar o seu cérebro, ler diferentes pontos de vista, argumentar possíveis respostas e perceber que apesar de ser um novo ano, dificilmente o conseguimos prever.

Na contracapa de “Sapiens”: “O fogo deu-nos poder. O boato ajudou-nos a saber cooperar. A agricultura aumentou o nosso apetite. A mitologia manteve a lei e a ordem. O dinheiro deu-nos algo em que confiar. As contradições geraram a cultura. A ciência fez-nos letais. Recorrendo a ideias da paleontologia, antropologia e sociologia, Yuval Harari analise os principais saltos evolutivos da humanidade, desde as espécies humanas que coexistiam na Idade da Pedra até às revoluções tecnológicas e políticas do século XXI – que nos transformaram em deuses, capazes de criar e de destruir. Esta é uma obra desafiadora, desconcertante e inteligente, uma perspetiva única e original sobre a nossa história e o impacto do ser humano no planeta.”

Na contracapa de “Homo Deus”: “A história começou quando os homens inventaram os deuses e terminará quando os homens se transformarem em deus. A guerra desapareceu. É mais provável cometer-se suicídio do que morrer num conflito armado. A fome está a desaparecer. É mais alto o risco de obesidade do que de fome. A morte tornou-se um simples problema técnico. Não alcançámos a igualdade – mas estamos perto de alcançar a imortalidade. O que nos reserva o futuro? Homo Deus explora os projetos, sonhos e pesadelos que darão forma ao século XXI – desde o vencer da morte à vida artificial. Sucessor do bestseller internacional Sapiens: História Breve da Humanidade, coloca as questões fundamentais para onde seguir a partir daqui? Como proteger o mundo dos poderes destrutivos do ser humano? Chegámos ao próximo passo evolucional: Homo Deus.”

Boas leituras!


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