viver

Quatro Paredes

Ana Marinho da Silva 30.12.2015

O som dos violoncelos ecoou pela divisão. As paredes originalmente brancas tinham agora mil cores e os tapetes estavam arrumados num canto. Reparo como a nossa casa ficou tão silenciosa e triste. Uma sombra invadiu-me. Estremeço ao pensar que és tu, mas não passa do dia a chegar ao fim. Acabou, é isso?

Foram nestas quatro paredes que tudo aconteceu. Que nós acontecemos.  Nunca me senti tão viva como nestes anos. Lembro-me quando me disseste que tinhas comprado uma casa. Estavas tão entusiasmado, extasiado. Sorriste e afirmaste “É perfeita”. Eras como uma criança. Puro. E transbordavas felicidade pelos teus poros.
Recordo-me que saí do trabalho mais cedo e que fomos os dois a correr - como dois loucos apaixonados que éramos – de mão dada. Tudo para eu conhecer aquela que viria a ser a nossa primeira e única casa.
Chegámos a um edifício tipicamente barroco. Transmitia uma vitalidade exuberante, uma harmonia, a promessa de uma vida única. Subimos até ao último andar. Existia apenas uma porta. Entrámos e era um estúdio, vazio, apenas com uma pequena divisão mobilada, que era a casa de banho. Tirando isso, eram apenas quatro paredes, amplas. Lembro-me que engoli a seco a desilusão do momento e que no instante seguinte te observei e reparei o quanto os teus olhos brilhavam, o quanto o teu sorriso era grande e genuíno. E como num soluço incontrolável disse “É perfeita”.

Foram nestas quatro paredes que começámos a nossa vida a dois. Na primeira semana éramos apenas nós e um colchão. Dias de amor puro, ternura e loucura. Recordo-me quando aos poucos e poucos fomos mobilando a casa. A primeira coisa que comprámos foi um fogão para cozinharmos e a última foi o estrado da cama que ficou vários dias de lado por adorarmos o colchão no chão.

Mesmo depois de mobilado sobrou-nos muito espaço. Sabias o quanto eu era apaixonada por arte e encheste as paredes com quadros diferentes. Abstratos, modernos, românticos. Baseados no Impressionismo, no Classicismo e no Expressionismo. Quadros que me arrepiavam, que me davam borboletas na barriga, que me despertavam os sentidos… tal como tu.

Aos poucos e poucos fomos juntando as peças todas. O teu violoncelo estava sempre no canto perto da janela. Dizias-me que gostavas de tocar a olhar para o céu e para a cidade.  As tuas partituras encontravam-se em cima do piano. Tocámos juntos tantas vezes. As sinfonias 5 e 9 de Beethoven, “Four Seasons” de Vivaldi e Dom Quixote de Strauss.

E os livros? A prateleira que percorria meia parede até ao teto recheada de livros. Perdias-te com os de poesia e drama, enquanto eu devorava os romances. Debatíamos as histórias que cada livro contava. Ríamos e chorávamos. Acabávamos sempre por adormecer nos braços uns do outro quando terminávamos o nosso debate emotivo.

Foram nestas quatro paredes que demos festas intermináveis, onde os risos predominavam, as paredes vibravam e os vizinhos reclamavam. Festas com os nossos amigos tão distintos e únicos, onde nos perdíamos com os vinhos tintos de Bordeaux e os brancos de Borgonha. Eram noites mágicas, onde abordávamos temas da atualidade, criticando e elogiando. Onde tocavas violoncelo e todos na sala de calavam e te observavam. Paravas o tempo, sabias?

A promessa do edifício barroco foi cumprida. Tive uma vida rica contigo. Casámos, passamos a nossa lua de mel na cama e amámo-nos intensamente todos estes anos. Não tivemos filhos, por crueldade de Deus, mas nunca existiram problemas ou ressentimentos por causa disso. Sempre fomos felizes e fortes. Afinal essa era a nossa regra, lutarmos por nós, todos os dias.

Foram nestas quatro paredes que ganhamos e perdemos a vida. Foi aqui que conhecemos o mundo e demos cor ao branco. Foi aqui, meu amor, que partilhamos o nosso tempo juntos e agora, já não existem mais festas, debates e momentos a dois. Já não existem mais músicas, pinturas e literaturas.

Nestas quatro paredes sobram o seu silêncio e o ruído das minhas memórias.

 

 


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