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Contracapa, página 10

Ana Marinho da Silva 04.02.2019

No meu 12º ano, quando me encontrava a decidir o que haveria de seguir na universidade, lembro-me de ter pensado que era psicologia o que queria fazer. Aliás, entrei em psicologia na universidade, mas esta minha cabeça sempre foi indecisa quando se trata do meu futuro e acabei por desistir dessa vaga, indo para ciências da comunicação. Desde pequena que pensei em mil e uma coisas para ser quando fosse grande. A verdade é que ainda hoje, apesar de já não querer ser mil e uma coisas, tenho uma dezena de opções do que gostaria de fazer (como é óbvio, todas diferentes uma das outras). É curioso como o nosso cérebro gosta de complicar as coisas, não é? Ou serão os nossos sentimentos a pregar partidas? Não serão, na verdade, os dois em conjunto para dificultar a vida?

Para responder a isto decidi trazer para a contracapa de hoje António Damásio com o seu livro “A Estranha Ordem das Coisas”. Recebi-o no Natal de 2017, prenda de um tio que adoro e que mo ofereceu considerando que tinha tudo a ver comigo. Em cheio. Tem tudo haver comigo, porque eu sou um turbilhão de emoções e pensamentos, para além de que adoro observar pessoas. Nunca confio em ninguém até me darem razões para tal. Sou simpática, como é óbvio, mas aprendi com o tempo que vai uma grande diferença entre simpatia e confiança. Por essa razão, acabei por me dedicar muito à observação. Cada gesto, cada palavra, cada olhar, cada tom. Fascina-me perceber o quanto somos diferentes enquanto seres humanos. Assim como compreender cada decisão que tomamos e o peso da razão entre cérebro e coração. António Damásio é, sem sombra de dúvida, a pessoa ideal para procurar uma resposta para todas estas questões pelas quais me fui interessando ao longo do tempo. No entanto, não considero a sua escrita fácil. Por muito que tente (e nota-se o esforço), considero que é complicado abstrair-se da natureza médica, acabando por usar conceitos complexos que são, por vezes, difíceis de compreender. Deixo aqui a nota de que considero que neste livro esteve muito melhor do que no “Erro de Descartes” onde tive bastantes dificuldades em ficar agarrada à narrativa e raras vezes me captou a atenção.

Devem estar a pensar que estou a apresentar um escritor que não gosto, mas estão enganados. Gosto bastante de António Damásio, porque me desafia. Os seus livros são constantes desafios, porque apesar da sua escrita não me fascinar, os temas que aborda interessam-me imenso. O “A Estranha Ordem das Coisas” interessa-me pelo facto de os sentimentos ainda não receberem o apreço que merecem como motivadores e negociadores da grande empresa cultural humana. Adoro a ideia do autor em dizer que tudo o que conseguimos até hoje enquanto espécie que vive em comunidade não dependeu só da nossa capacidade intelectual, social e da linguagem que possuímos, mas também dos nossos sentimentos. Da dor e sofrimento ao bem-estar e prazer. Gosto ainda mais do realce de que a medicina não começou como desporto intelectual destinado a estimular a nossa capacidade de fazer diagnósticos, mas sim como consequência dos sentimentos específicos dos pacientes e dos sentimentos que a situação desses doentes provocou nos primeiros médicos, nomeadamente a compaixão nascida da empatia.

É muito importante perceber que os grandes avanços da medicina aconteceram tendo em conta esta compaixão e toda a empatia de base. Se os médicos não tivessem sentimentos, dificilmente ambicionariam melhorar a vida das pessoas. Tendo isto em conta, deixo uma crítica a todo o sistema de saúde do nosso país: pensem menos na medicina como um trabalho ou fonte monetária e foquem-se nos sentimentos inerentes à condição humana. Procurem ter em conta esses mesmos sentimentos quando tiverem pacientes à vossa frente, porque tudo o que aquelas pessoas precisam é de percecionar empatia da vossa parte e compreenderem que estão entregues a profissionais que realmente se preocupam, que são humanos.

Os homens crescem todos os dias quando se interrogam, compreendem e solucionam problemas, desenvolvendo soluções interessantes para as situações complexas das suas vidas e elaborando os meios para promoverem o seu desenvolvimento.  E as sensações de dor e prazer são os catalisadores destes processos de interrogação, compreensão e solução.

A homeostasia tem a ver com o conjunto fundamental de operações no cerne da vida. Os sentimentos e a homeostasia estão associados de modo próximo e consistente, porque os sentimentos são as experiências subjetivas do estado da vida. Como diz Damásio “podemos pensar nos sentimentos como sendo adjuntos mentais da homeostasia”. O que fica do seu livro é que se sabe muito sobre o sistema nervoso, mas não se sabe o suficiente. A verdade é que, a emergência mais estranhamente colocada na ordem das coisas é, muito provavelmente, a dos sentimentos e da consciência. Fico grata ao autor por tentar dar objetividade científica àquilo que é uma coisa subjetiva, mas realmente a vida é uma estranha ordem das coisas. Até lá, continuo a observar quem por mim passa e a ler quem sobre estes temas escreve.

Na contracapa: “O que levou os seres humanos a criar culturas, esse conjunto impressionante de práticas e instrumentos onde se incluem a arte, os sistemas morais e a justiça, a governação, a economia política, a tecnologia e a ciência? A resposta habitual a esta pergunta remete para a excecional inteligência humana, auxiliada por uma faculdade ímpar: a linguagem. Em A Estranha Ordem das Coisas, António Damásio proporciona uma resposta diferente. Ele afirma que os sentimentos – de dor, sofrimento ou prazer antecipado – foram as forças motrizes primordiais do empreendimento cultural, os mecanismos que impulsionaram o intelecto humano na direção da cultura. Além disso, propõe que os sentimentos monitorizaram o sucesso ou o fracasso das nossas invenções culturais e permanecem, ainda hoje, envolvidos nas operações subjacentes ao processo cultural, para o melhor e para o pior. A interação favorável e desfavorável de sentimento e razão deve ser reconhecida se quisermos compreender os conflitos e as contradições que afligem a condição humana, desde os dramas humanos pessoais até às crises políticas.”


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