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UM FINO, POR FAVOR

José Miguel Pires 08.02.2019

O João, ribatejano de coração, decide vir ao Porto passear um dia. Sentado numa esplanada na Ribeira, chama o empregado e pede uma "imperial". Desta situação podem ocorrer duas consequências: Ou o empregado não se sente com vontade de discutir pela milésima vez com um turista, ou decide soltar uma piadinha do estilo "Portanto, um fino?".

Este fenómeno poderá parecer cómico, mas numa altura em que tanto se fala dadescentralização e do desenvolvimento das regiões fora de Lisboa e Vale do Tejo éfulcral discutir as consequências destas diferenças.

A realidade é que se um portuense for ao Bairro Alto pedir um "fino" poderia recebertambém alguns olhares menos amigáveis, expondo a sua situação de turista. Aquestão não está em decidir qual é o termo certo, mas sim em que nenhumdos dois está errado.

Falo deste assunto porque há dias chegou-me às mãos um frame do programa JOKER, em que a pergunta era "Na cidade do Porto, o que se pretende beber quando se pede um "fino"?". A resposta devia ser algo como "Cerveja", ou "Um copo de cerveja". Na realidade, a opção correta dizia "Imperial". Qual é o pensamento que fica na cabeça ao ver isto? Que o termo universal é Imperial, e a minha pergunta é: Porquê?

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Ora, este não é um incidente pontual, já que, não sei se alguém já reparou, mas as máquinas de pedido nos McDonald's não dão a opção de pedir um "fino", mas sim uma "imperial". Quererá isto dizer que o termo correto é "Imperial" e "Fino" é só um regionalismo do Norte do país? Ora, assim sendo quer parecer que o termo utilizado na capital e no sul do país se sobrepõe ao nortenho, o que me faz questionar até que ponto é que isto não será um atentado contra os costumes e a importância desta região do país.

Outro exemplo de como os termos da capital se generalizam como sendo os "corretos", pondo de lado os vocábulos do Norte: Um anúncio da Delta, cuja frase é "Até fica com os olhos em bica", presente entre as faculdades da Universidade Fernando Pessoa, no Porto. Uma brincadeira com o nome dado ao café curto em Lisboa, que, no entanto, não significa absolutamente nada no Porto. Na cidade onde as bicas são cimbalinos, este anúncio vem tentar impor algo que não é verdadeiro, uma sobreposição de costumes na tentativa de homogeneizar o país ao ritmo de Lisboa.

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Importante será clarificar: Não estou a tentar dizer que os termos usados no Norte do país são mais "corretos" do que aqueles usados a sul. Aliás, todo o objetivo deste artigo é contrariar essa ideia de que os falares duma região são mais corretos do que outros. A riqueza linguística é uma das maravilhas do português. Uma sertã também é uma frigideira, um cabide é uma cruzeta e (os meus favoritos) um manguito também é um pirete. Não me parece justo definir um termo como sendo "mais correto" do que outro, e portanto venho denunciar esta série de acontecimentos que parecem querer impor maneiras de falar típicas da capital em regiões que não conhecem tais termos e que têm a sua própria maneira de nomear certos objetos e alimentos. Será assim tão difícil mudar o nome nas máquinas do McDonald's para "Fino"? Ou então evitar usar o termo "Imperial", uma vez que não é universal?

Há dias, na previsão do derby Benfica - Sporting, um senhor comentava muito orgulhosamente "Não há jogo melhor que um Benfica - Sporting, afinal de contas, são as duas equipas da capital!", e isso deixou-me a pensar muito na imagem que os lisboetas têm do resto do país. Ainda falando de frases que ficam na mente, encontrei uma muito interessante, que dizia algo como "Bom, Lisboa vai ter o Web Summit até 2028, teve o festival da Eurovisão em 2018, as JMJ em 2022... Quando descobrirem que o país tem mais 18 distritos (e os arquipélagos, claro) até se vão passar!".

Estas situações não ocorrem só com frases ou falares, mas também na cobertura de eventos. Durante o Furacão Leslie, que fez um morto em Coimbra e grandes estragos na região centro do país, lembro-me de ver um repórter em Carcavelos, a dizer que o ambiente era relativamente tranquilo e que não haviam grandes estragos. Passaram horas até alguém se ter lembrado de mandar um repórter para Coimbra ou outras regiões mais afetadas. Foi surreal, ver o vento em toda a sua força lá fora e olhar para a TV e ver alguém a dizer que "não havia grandes estragos e que tudo estava relativamente tranquilo".

Numa altura em que tanto se fala de descentralização, parece que cada vez mais os recursos e as oportunidades não sobem a A1 nem descem a A2. Ficam ali dentro da CRIL, aliás. Poderão dizer que as outras regiões não têm condições nem infraestruturas para receber certos eventos... Ora, parece-me notar aqui um efeito "bola de neve". Não se constroem infraestruturas porque não se fazem eventos que as mereçam noutras cidades, e não há eventos em outras cidades porque não há infraestruturas para os receber.


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