viver

Despedida

Ana Marinho da Silva 30.12.2015

Numa despedida, mais um dia de chuva. Questiono-me se S. Pedro está a ser irónico (por se estar a aproveitar da situação para descarregar a chuva toda) ou altruísta (para combinar com o nosso estado de espírito). Mas é apenas um pensamento passageiro. Surge e desaparece com o vento numa questão de segundos.

Olho para o céu e inspiro. Reencontrei uma conhecida minha que não gosto, de maneira nenhuma, mas que respeito (talvez por medo).  Ela passou por mim, causou-me arrepios e baixei a cabeça. Gostava de a chamar tanta coisa. Dar uso ao puro e duro vocabulário português em que todas as palavras são verdadeiros palavrões. Lembro-me que tive o primeiro contacto com ela ainda era bastante pequena, mas nunca a compreendi realmente até ao nosso segundo encontro. A partir daí, sempre a detestei e respeitei. Tão antitéticos estes sentimentos, eu sei. Certamente já sabem quem ela é, pois toda a gente a conhece, mas eu adianto-me neste texto, deixando-me de rodeios: a Morte.

Agora compreendem-me, certo?

Hoje foi mais um dia de despedida. Hoje foi um dia duro. Sofri por mim, sofri por quem amava, sofri por quem vi sofrer. E em silêncio disse a mim mesma “nunca foste boa com despedidas”. Será isso um defeito ou uma qualidade? Não quero que as pessoas partam, que me digam adeus. Gosto do calor humano, da presença física. Sabe tão bem receber aquele beijo, ver aquele sorriso, ouvir aquela respiração, que quando acabam os aqueles, não existe nada que nos apare a queda. Odeio despedidas. Odeio a Morte.

Não sou pessoa de ódios, mas isto não suporto. Afinal o que é a vida? E o que somos nós nela? Um mero pó que passa e vai? Acredito, sim. Alguns restos desse pó marcam o caminho, outros perdem-se com o vento e não voltam a ser encontrados. A despedida de hoje foi de uma pessoa que me marcou o caminho. De uma pessoa que esteve sempre presente na vida de muita gente. Hoje foi a despedida de uma pessoa sem igual. Levou um bocado de nós e deixou um pedaço de si.

A Morte vai embora agora e só desejo que ela me devolva o que me tirou. Ela leu o meu pensamento e acenou-me um não com a cabeça. Maldita. Os meus encontros com ela são sempre tão frios e cruéis. “Não me quero encontrar mais contigo” – é a única coisa que me surge à mente. A vida está sempre a testar-nos, a dar-nos provas de fogo para os nossos corações ficarem frágeis. Questiono-me se a ela e a morte são aquele tipo de irmãs completamente diferentes e que causam sentimentos distintos às pessoas, mas que, de alguma forma, se completam. Uma é a que dá e a outra é a que tira. Ambas criam um ciclo efémero, recheado de passagens e momentos que nos marcam.

Hoje passou mais um dia. Triste. Como o tempo. Como o estado de espírito.

Hoje sei que nunca “cairei ao poço”, tal como ela sempre me disse.

Hoje finalizou-se um ciclo e eu prometi a mim mesma ser uma pessoa mais forte, a dar o meu melhor, tal como ela o fez.

 

Obrigada e até já.


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