viver

Cansaço

Ana Marinho da Silva 30.12.2015

Cansaço.

Len-ti-dão. Sílabas pesadas e uma alma ferida.

O sangue escorre-me pelas mãos e pinta a folha em branco. Poderá isto ser arte? Tão belo. Tão horrível. Tão puro.

Cansaço. Mórbido. É isso que sinto. Escrevo com pausas. Falo com pausas. E o sangue continua a escorrer. Agora, a folha branca com manchas vermelhas é, apenas, um papel húmido vermelho. Pego nele e observo-o. A minha alma está tão encarnada como esta obra. Pobre de mim.

Sinto-me a morrer por dentro e ninguém se apercebe. Serei eu invisível? Insignificante? Acredito. Mas o meu sangue é uma arte.

Cansaço. Todos – os – dias. Sinto-me esgotada, agoniada, perdida. As minhas pernas tremem ao andar. Os meus braços doem ao espreguiçar.  E a minha alma é torturada pelo vento. Estou a verter o meu vinho do Porto e alguém está a saboreá-lo.

Sofrimento. Sentir-me a morrer por dentro é cruel. Pego na vigésima folha branca e até essa fica vermelha. Quero parar a corrente, mas a minha ferida está aberta. Esta opacidade atormenta-me. Desejo escrever uma última vez antes de sucumbir a este cansaço. Explicar-vos como a vida dá muitas voltas. Mas só consigo tornar uma folha branca em escarlate.

A minha arte não foi feita por mim. Foi-me oferecida. E é o melhor que tenho ou não a designaria por arte.

 

Sinto-me a adormecer, o cansaço consumiu-me. Está na altura da ferida fechar. Para vocês, deixo o meu legado: um papel húmido vermelho e a arte do meu sangue. 


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