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Contracapa, página 12

Ana Marinho da Silva 04.03.2019

Vivemos num mundo que dá imenso valor às aparências e às primeiras impressões. A pressão que as pessoas sentem para estarem bonitas e apresentáveis aos olhos dos outros é cada vez maior. Infelizmente, acho que toda a gente já passou por isso, de uma maneira ou de outra. Houve sempre algum momento em que sentimos que precisávamos da aceitação dos outros. Talvez por isso é que tenha gostado tanto deste livro. Ele demonstra a importância que as pessoas mais próximas têm na construção da nossa personalidade e segurança psicológica e como isso se repercute no nosso futuro. Obrigada Danielle Steel, por pores um pouco de todas as mulheres neste livro.

Jim e Christine eram o par deslumbrante e iam ser os pais perfeitos. Idealizaram o filho perfeito, tal como eles. Um rapaz era exatamente o que queriam. Decoraram o quarto todo em tons de azul e preferiram não saber o sexo do bebé antecipadamente.

Saiu-lhes uma menina e a história perdeu toda a sua perfeição.

Achando-a parecida com a rainha Vitória, o pai sugeriu que o nome completo fosse Victoria Regina Dawson como homenagem.

Victoria era uma bebé fácil e feliz, bem-disposta e pouco exigente. Começou a andar e a falar cedo e as pessoas costumavam comentar que ela era uma menina muito fofa. À medida que foi crescendo, parecia ser muito inteligente, era tagarela, amável e, aos três anos, tinha conversas em que parecia muito mais velha. Aos cinco, o pai contou-lhe que tinha o nome de uma rainha e Victoria sorria com grande alegria sempre que ele dizia isso. Ela sabia como eram as rainhas, “nos contos de fadas que lia, eram bonitas e usavam lindos vestidos. E, às vezes, também tinham poderes mágicos.”

Mas entretanto, a história perdeu a sua magia.

“Aos seis anos, Victoria ainda era redondinha e rechonchuda. Tinha as pernas fortes e diziam-lhe com frequência que era grande para a idade. Nessa altura, andava no primeiro ano e era mais alta do que a maioria das crianças. E também era mais pesada do que algumas delas. As pessoas diziam que ela era “matulona”, o que ela interpretava sempre como um elogio. Ainda andava no primeiro ano, quando um dia, ao folhear um livro com a mãe, viu a rainha que lhe dera o nome.
- É ela? – perguntou, por fim, à mãe (…)
- Foi uma rainha muito importante em Inglaterra há muito tempo – explicou Christine.
- Nem sequer tem um vestido bonito, não tem coroa e o cão dela também é feio – Victoria estava desolada ao dizer isto.
- Já era muito velha nessa altura – disse a mãe de Victoria a tentar suavizar o momento. Percebeu que a filha estava abalada e isso deixou-lhe um aperto no coração. Ela sabia que Jim não era mal-intencionado, mas, por momentos, a piadinha dele tinha tido um efeito contrário e Victoria parecia ter ficado chocada. Ficou a olhar imenso tempo para a fotografia e duas lágrimas deslizaram-lhe pelo rosto. Christine não disse nada quando viraram a página e esperou que Victoria se esquecesse da fotografia que vira. Mas ela nunca esqueceu. E a perceção que ela tinha de como o pai a via, como uma rainha, nunca mais foi igual.”

Tal como Victoria, também eu fui uma miúda rechonchuda. Não me considerava um “peso pesado”, mas estava acima do limiar do aceitável. Por essa razão cresci com comentários de pessoas conhecidas de que era uma menina forte, bem constituída, mais gordinha, badochinha. Todos esses comentários, mesmo que sem qualquer maldade associada, afetaram-me durante bastante tempo. Até que cresci e mudei o meu tipo de pensamento. Durante vários anos fui influenciada pelo o que as pessoas achavam e pensavam de mim e, sinceramente, esse período ficou marcado na minha história como os meus piores anos. A opinião dos outros é realmente tóxica e entristece-me perceber a quantidade de comentários que ferem quem menos confiança tem. É urgente as pessoas aprenderem a valorizarem-se pelo que são e não pela aceitação dos outros.

Assim como eu, Victoria cresceu. Tornou-se mulher, com ideias feitas e planos definidos. Mas ao contrário de mim, pouco fez por si. É a partir daqui que toda a harmonia entre mim e a personagem quebra. É a partir daqui que fiquei com vontade que Victoria abrisse os olhos e fizesse mais por si e não pelos outros. Ela não se aceita, apenas muda o que não gosta no seu corpo fisicamente. Não ganha qualquer segurança psicológica, não possui qualquer autoestima. É triste, porque temos consciência que é assim com milhares de mulheres e continuamos em silêncio por achar o contrário.

Victoria acaba por se afastar de casa e da tirania dos pais, há procura da sua felicidade. Mantém sempre perto de si a sua irmã, que adora loucamente e que é um dos seus grandes apoios, mas que é o exemplo de filha perfeita que os seus pais sempre quiseram: bela e magra.

Devo admitir que a história em si é pobre, pouco romance para quem procura clássicos de Danielle Steel, mas trago-vos este livro porque quero que todas as mulheres saibam que não se podem conformar com o que os outros dizem. Não há nada melhor que o amor próprio. Não sejam como a Victoria. Não se acanhem. Não tenham medo de dizer o que pensam, nem de crescer. Acho que uma das mensagens mais bonitas da história se prende com o facto de Victoria se considerar a ‘mulher imperfeita’, quando na verdade era perfeita em todas as áreas da sua vida. Vestir tamanhos XL não dita aquilo que tu és. Todos os corpos são bonitos à sua maneira.

Ser feliz nunca deve ser ditado por um número ou medida. Sugiro este livro não pela sua história, mas pela sua mensagem: não há nada como o amor próprio e quanto mais gostarmos de nós, mais felizes conseguimos ser, acreditem.

Na contracapa “O crescimento de Victoria Dawson não é uma tarefa fácil. Com pais exageradamente exigentes com a imagem da filha perfeita, Victoria nunca alcança a fasquia por eles imposta. Mas quando chega a segunda filha, Gracie, Victoria fica felicíssima e entretém-se a acarinhar a irmã, que afortunadamente se torna a filha que os pais pretendiam. Entre lutas para perder peso e o esforço de não parecer demasiado inteligente sob pena de não conseguir pretendente, Victoria debate-se com a carreira profissional que deseja seguir contra a vontade dos pais, porém motivada por Gracie que a adora.
Em Nova Iorque, Victoria tem finalmente oportunidade de seguir os seus sonhos e escapar à tirania dos pais. Será que se consegue encontrar a si mesma?”


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