pensar

Palavras

Ana Marinho da Silva 21.03.2019

Deixei de escrever com regularidade.

As marés mudaram e dou por mim a pensar que perdi o jeito.

Não deixei de escrever por preguiça, porque na verdade tenho escrito bastante para projetos académicos, mas deixei de escrever com sentimento. Às vezes acho que já nem sei o que isso é. A perceção de que perdi as palavras que me saiam tão naturalmente tem-me assombrado nos últimos tempos. Acabo por me rir sozinha quando percebo que a altura da minha vida em que menos escrevo é aquela em que mais leio, mas logo de seguida fica apenas silêncio.

Fica apenas silêncio porque tenho palavras dentro de mim que nunca saem. Palavras que leio e que são minhas, apesar de nunca as ter escrito. Têm sido recorrentes os momentos em que leio livros e que penso que aquelas palavras são minhas. Que estavam guardadas à espera do melhor momento para terem vida. Que estavam à minha espera, mas eu demorei. Demasiado, como sempre… e entretanto alguém se lembrou delas e tornou-as suas, sem nunca deixarem de serem minhas.

Acho que nunca fui boa com as palavras. Nunca o suficiente para ser quem queria. Sinto que me falta algo, mas curiosamente é essa falta que me faz escrever agora.

Tenho cada vez menos carinho pela humanidade e aprendo a desfrutar do silêncio que as palavras por nascer me dão. Pelo menos quando nascerem, na vida de outra pessoa, eu saberei que são minhas e que tirei o máximo partido da paz que me ofereceram.

As palavras são efémeras na sua eternidade, rápidas na sua longevidade e eu fui-me apaixonando por elas. Um amor tão concorrido e não correspondido, platónico até, porque as palavras são de todos quando as acho sempre minhas.

Agora faltam-me palavras. Voltei ao ruído deste mundo cada vez mais incógnito para mim, que me faz desgostar da humanidade, e a inspiração foi-se. Não percebo como é que as pessoas aprenderam a gostar deste barulho quando eu procuro, a todo o custo, estar no silêncio. Ultimamente tenho acumulado palavras, porque o soundscape me distrai e me rouba a maneira de as declamar.

Gosto das minhas palavras ditas por mim, mas adoro-as quando escritas pelos outros, porque não deixam de ser minhas. Nunca deixarão.

Só as palavras me entendem num mundo que não me consegue entender.

Só as palavras que me passam pela cabeça nos momentos de silêncio e às quais nunca dou uma vida tangível é que me dão paz.

Tornei-me numa pessoa perturbada, porque perdi a capacidade de suportar o ruído. Ele roubou-me as palavras que estimava, deixou-me mais só e confusa, levou-me a escrever este pedido que convosco partilho para pararem com todo o ruído que não me deixa dar vida às palavras.

Abafem os sons que me trocam as palavras. Tragam-me o silêncio e a serenidade que procuro nesta vida. Tragam-me as palavras e a capacidade de lhes dar a vida que merecem. Tragam-me o jeito de volta.

 


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