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Conversas Imaginárias1

Renato Ferreira 30.03.2019

Digo eu aos militantes de um (qualquer) partido: um olhar minimamente distanciado dos partidos políticos tem inevitavelmente de perguntar - é possível estar ao serviço do país estando ao serviço de um partido?

Responder-me-ão os militantes de um (qualquer) partido: claro que sim; aliás, esse é objectivo de pertencer a um partido – servir o país, ajudá-lo construtivamente, fazê-lo andar para a frente.

Argumento eu perante esses militantes de um (qualquer) partido: mas espere aí, como é que isso é possível? Então se Portugal é constituído por cerca de 11 milhões de pessoas em que cada um dos cidadãos tem uma ideia diferente de como deve ser governado o país, como é que um partido tem a sorte de estar sempre certo em relação ao que é melhor para todos? Não será o governar uma espécie de “agora vamos por ali porque nós ganhámos as últimas eleições”, e “agora vamos por acolá porque nós é que ganhámos as eleições”. Isso não será bem governar, é mais uma espécie de ora puxar Portugal para um lado, ora puxá-lo para outro, na esperança (duvidosa) que o equilíbrio entre esses puxamentos seja algo benéfico. Não concordam?

Responder-me-ão os militantes de um (qualquer) partido: ó espertalhaço, tens alguma solução melhor?

Respondo eu a esses militantes de um (qualquer) partido: claro que sim; forma-se um partido cujo objectivo é escolher as melhores ideias dos partidos já existentes. Ora pensem lá: não é sorte, ou coincidência demasiada, que um só partido consiga ter sempre as melhores ideias? Não será humanamente mais verosímil que será uma espécie de média entre as ideias de todos os partidos que estará mais próxima da vontade da totalidade da população? É claro que isso não existe, a vontade da totalidade da população. É só uma maneira de dizer. Mas seria talvez mais justo. Em vez de “agora são aqueles que estão a governar e portanto não gosto” e “agora são estes que estão a governar por isso já gosto”, seria mais “estamos a governar-nos a nós mesmos”. Certo?

Responder-me-ão os militantes de um (qualquer) partido: ó mago da política, porque é que não te deixas de teoria e não fundas então esse partido? Vais ver como te esmagamos de imediato. Aliás, nem vai ser preciso ação de nossa parte. Todos se vão rir.

Peço eu a esses militantes de um (qualquer) partido: calma, não entremos por aí. Não é preciso ninguém esmagar ninguém. E aliás, estão a ver? Quer-me parecer que estão mais preocupados em provar que os outros partidos estão errados do que propriamente a preocuparem-se com o país. Lembram-se daquela história da Madre Teresa de Calcutá que recusou ir a uma manifestação contra a guerra, tendo dito que só iria se fosse uma manifestação a favor da paz? É por aí…

Responder-me-ão os militantes de um (qualquer) partido: e tu por acaso és alguma Madre Teresa de Calcutá? Se sim, põe-te no jogo, rapaz. Estamos à tua espera. Mas olha que o teu partido não vai nunca conseguir governar Portugal. E sabes porquê? Quem é que vai, dentro do teu partido, escolher quais são as ideias que são as melhores dentro de cada um dos partidos já existentes? Só esse trabalho de escolha já será uma filtragem indicativa de preferências. Ou seja, será um partido como todos os outros. A não ser que depois surja outro partido que faça o mesmo trabalho do que tu e assim sucessivamente, numa espiral sem fim de fractais de partidos. É isso que queres?

Respondo eu a esses militantes de um (qualquer) partido: ok, por agora ganharam. Mas voltarei a tentar…


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