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Contracapa, página 14

Ana Marinho da Silva 01.04.2019

Conheci-a em criança. Percorri o jardim que inspirou a sua escrita, vivi a magia das suas palavras e durante muitos anos disse querer ser poetisa por sua causa. Criou muitos sonhos em mim e fez-me crescer a querer descobrir mais sobre a beleza deste mundo. Identifiquei-me com ela devido à paixão pelo mar. Graças a ela fiquei com o bichinho do Japão, cresceu em mim o respeito pela natureza, comecei a adorar gladíolos e olhar com mais carinho para as flores. De facto, sem Sophia a minha infância teria ficado com um vazio por preencher. Sem o rapaz de bronze, a fada oriana, a menina do mar, o cavaleiro da Dinamarca, a floresta, a árvore, a noite de natal ou as histórias da terra e do mar, jamais seria uma miúda que sonha com livros e os mundos que carregam.

Li há uns tempos um artigo cujo título era: “Um caso de amor chamado Sophia de Mello Breyner” e sorri por me identificar tanto com o que estava ali escrito. Foi nesse momento que decidi que teria de falar dela na Contracapa. A Sophia é, de facto, um grande caso de amor. Daqueles que não se esquece, que se eterniza e acarinha ao longo do tempo sempre com a mesma intensidade. A Sophia foi especial e trato-a por tu, porque, afinal de contas, cresci com ela. Para além de que, o livro que tive durante mais tempo na minha mesinha de cabeceira e que mais vezes li e reli foi precisamente da Sophia (“Cem Poemas de Sophia”). Acabou por se tornar minha amiga com as recorrentes leituras noturnas e quantas mais vezes a lia, mais vezes a conhecia.

Pensei seriamente que livro deveria sugerir e, a verdade, é que me foi impossível escolher. Pelo imenso que a Sophia é, não vos sugiro um livro, nem posso fazê-lo. Sugiro-vos ela mesma, deixando a vosso gosto o que ler dela. Acreditem que, para mim, sugerir um escritor é sempre mais difícil do que aconselhar uma obra do mesmo, porque revela a sua grandiosidade e importância ao leitor. Atingir o sucesso de um livro não é fácil, é certo, mas é sempre mais acessível do que construir o sucesso do autor, mas Sophia conseguiu. É reconhecida por todos. Não posso dizer que é amada por todos, mas sinto que uma grande parte nutre carinho pelas suas palavras e versos. Em mim terá sempre um lugar especial.

A Sophia era escritora e não leitora, tal como disse numa entrevista, e foi com a sua escrita que me fez leitora. A sua capacidade de dar vida e significado às coisas não é possível de descrever e é até difícil de compreender. Há quem lhe chame dom, eu decidi passar a chamar-lhe, simplesmente, Sophia.

Para a Contracapa de hoje existem dezenas de contracapas, por isso deixo à vossa escolha.

“Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto ao mar.”

E sempre que passeio junto ao mar, lá te sinto, Sophia.


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