viver

Exatidão poética

Ricardo Jorge Pinto 04.01.2016

A sua exatidão é poética. Hélène Grimaud inclina-se sobre o piano com o mesmo vigor com que um atleta nadador se atira à água. Mas quando os seus dedos tocam no teclado as notas saem suaves e parecem pairar, leves, sobre as cordas.

 

Em alguns momentos e em certas frases melódicas, Hélène recorda-me Glenn Gould. Ela recusa a comparação, embora admita que o desaparecido pianista canadiano é uma das suas referências. Mas a verdade é que há alguma coisa de Gould no arrojo e na forma como corrige notas “erradas”, com a convicção de quem sente que aquela é a forma de ler um trecho.

 

Aos 15 anos Hélène já gravava Rachmaninoff, com um fulgor que impressionava os mais exigentes. Hoje, aos 46 anos, ela preserva a determinação, mas o seu rosto revela uma tranquilidade desarmante, de quem se mistura na pauta e se perde entre as notas, se confunde com a melodia.

 

Tenho falhado muito comigo. E uma das falhas é a de nunca me ter levado a ver Hélène Grimaud ao vivo – para sentir esses instantes em que ela se supera, porque contorna a sua própria essência como pianista (por exemplo, só em concertos ao vivo ela usa o pedal do piano).

 

Confesso-vos: gostava de a ver no La Scala, reparar no seu braço suspenso sobre as teclas, por entre as colunas do balcão dessa sala mítica milanesa, onde os génios são melhor apreciados.

 

Alguém um dia disse que, quando os anjos tocam entre si, tocam Bach; quando tocam para Deus, tocam Mozart. Mas, todos os dias, eles devem sonhar em tocar como Hélène Grimaud.

 


Relacionados

De costas voltadas

Oasis de volta? Ainda não.

Continuar a ler Renato Ferreira   10.08.2018

Letter

Às sextas, às seis...Renato Ferreira...

Continuar a ler Renato Ferreira   13.07.2018

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário