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Contracapa, página 15

Ana Marinho da Silva 15.04.2019

Aprendi com o tempo a ser uma pessoa mais reservada. Quando andava na escola básica sempre senti a necessidade de ter atenção das pessoas. Gostava de me sentir acarinhada, mas aprendi que esta dependência é bastante tóxica e carrega consequências difíceis de calcular. Foi um processo longo, mas hoje tornei-me uma pessoa com uma porta pesada e quem me quiser conhecer devo admitir que tem de fazer bastante força. Há quem diga que me tornei mais fria. Talvez. Apesar de, no meu ponto de vista, sentir que apenas aprendi a gostar de mim e a selecionar quem me faz bem ou mal.

Já me disseram que eu tenho dificuldade em criar novas relações. Não, não tenho. Simplesmente só crio relação com quem quero. Toda esta jornada de aprendizagem e amor próprio fez-me perceber quem quero que fique e por quem não irei lutar para que fique. Como é óbvio, estando numa rubrica da contracapa, houve um escritor, ou melhor, um livro, que me influenciou bastante nas decisões que tenho vindo a tomar na minha vida. Inevitavelmente, é dos meus livros preferidos e acho que merece ser falado, apesar de mais de meio mundo o reconhecer. Só o ofereci a uma pessoa e, acreditem, se ofereço um dos meus livros preferidos a alguém é porque essa pessoa representa um dos pilares que me sustentam. No caso em específico, o pilar com o coração mais bonito deste mundo, para combinar com o livro de Hermann Hesse, “Siddhartha”.

Conheci Siddhartha em 2016, um personagem maravilhoso, devo admitir. A cada página que folheava ia descobrindo um pouco mais de si, ia compreendendo o que sentia. Quando o conhecerem vão encontrá-lo na mesma situação que eu: a procurar a felicidade e a paz de espírito. Em dois extremos bastante distintos, devo admitir, mas creio que só percebendo as duas faces da moeda é que podemos dizer realmente que encontramos a paz interior.

Nascido na Índia, Siddhartha, filho de um brâmane erudito, cresceu sem que nada lhe faltasse, teve uma infância sem misérias e repleta de conhecimento. Tinha um futuro promissor, “participava nas conversas com os sábios”, treinava com o seu amigo Govinda a retórica, a arte da contemplação e a meditação.

“Assim Siddhartha era amado por todos. A todos alegrava, a todos tornava felizes.” Exceto a ele mesmo. “Siddhartha começara a alimentar em si a infelicidade. Começara a sentir que o amor de seu pai, o amor de sua mãe e o amor do seu amigo, Govinda, não o poderiam tornar feliz para todo o sempre.”

É então que decide deixar a casa dos seus pais e se tornar um samana. Durante esse período, o seu objetivo era tornar-se vazio, exterminar-se. No entanto, após tantos momentos de privação, acabou por perceber que o modo de vida de um samana é uma forma de fugir da vida e não de a encontrar e partiu, juntamente com o seu amigo Govinda, ao encontro de Buda com quem muito aprende.

Poderia dizer-vos tudo, mas não posso contar todos os pormenores da história. Não faz, nem faria qualquer sentido, porque quero é que leiam o livro.

A verdade é que Siddhartha passou por dois extremos: teve tudo e nada, acabando por perceber que a felicidade e o significado da vida não está em nenhum dos extremos, mas sim no equilíbrio dos mesmos. Entre as muitas mensagens do livro, é importante que o leitor perceba qual a que lhe chama e lhe toca ao coração. Para mim foi, sem sombra de dúvida, o saber amar-me e o de continuar a viver por mim, pelas minhas decisões, pelos meus erros, pelos meus próprios pés.

Acredito que só conseguimos encontrar o nosso caminho por nós, por vezes com um empurrãozinho de um livro (que inevitavelmente também se torna nosso).

Na contracapa “Nascido na Índia, no século VI a.C., filho de um brâmane, Siddhartha passa a infância e a juventude isolado das misérias do mundo, gozando uma existência calma e contemplativa. A certa altura, porém, abdica da vida luxuosa, protegida, e parte em peregrinação pelo país, onde a pobreza e o sofrimento eram regra. Na sua longa viagem existencial, Siddhartha experimenta de tudo, usufruindo tanto as maravilhas do sexo, quanto o jejum absoluto. Entre os intensos prazeres e as privações extremas, termina por descobrir “o caminho do meio”, libertando-se dos apelos dos sentidos e encontrando a senda da paz interior. Em páginas de rara beleza, Siddhartha descreve sensações e impressões como raramente se consegue. Lê-lo é deixar-se fluir como o rio onde Siddhartha aprende que o importante é saber escutar com perfeição. Este romance é um dos livros mais vendidos de sempre.”


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