viver

Quem? O Quê? Porquê?

Rita Cabral 24.04.2019

 

Conhecemo-nos ao sol, numa mesa da Ribeiro, na baixa do Porto. Em inevitável plano inclinado. Tínhamos trocado inúmeras tentativas de encontro pelo instagram. Quando conseguimos, o tempo não se compadeceu de tanta pergunta e resposta, de ideias vagas e objetivos definidos. Partimos a correr para a galeria onde está patente Quem? O Quê? Porquê?, a mais recente exposição de Graça Paz.

As pinturas, sobretudo aguarelas que ganham vida entre o geométrico e o abstrato, recheiam aqueles 60 metros quadrados de cor e luz. Ao som de furos na parede para alterar as peças a expor tudo se vai encaixando, enquanto recordo que Bach, Chopin e Ravel vivem ali. Estão plasmados nos traços e nas figuras, cruzam-se e misturam cores. Graça afirma no seu blogue 365 que são memórias da loja de discos de vinil do seu pai e de muitos serões a adormecer ao som de música clássica. A série Allegro afectuoso tem Shumann em si, numa interpretação de Rubinstein.

Mas entra pelos olhos dentro o quanto há ali também de água e plantas. De quem viveu ao pé do mar numa cidade como o Porto e se mudou para o campo. De quem trabalhou numa horta e ama a natureza. É extremamente claro que a aguarela é um veículo privilegiado e completamente óbvio porque se define Graça enquanto aguarelista de paixão. A fluidez e os jogos de transparência. A cor e a luz. Como aquela que vem da Rua Cândido dos Reis e entra a jorros pelos enormes vidros da galeria, de onde vou continuando a descolar pequenas letras brancas com informação desatualizada.

Deslumbro-me com os papéis que usa. Os suportes são totalmente coerentes com o que inspira esta artista. Vêm da Índia, e em outros casos do Tibete, de Inglaterra e Amalfi, em Itália. A sua textura traz um mundo em cada fibra que a compõe.

Tiro fotografias ao Sr. Manuel, fiel assistente que mede, pendura e faz do escadote um dos seus melhores amigos. E descubro um sistema dinamarquês antigo de pendurar obras pesadas, feito de duas barras de madeira com um corte em plano inclinado que casa e encaixa. Lindo. O verso do quadro também é uma obra de arte.

Todas aquelas leituras de Graça enriqueceram e moldaram as suas obras. Sofia de Mello Breyner sempre presente desde pequena; Paulo Coelho, Richard Rohr, Erling Kagge, Sara Maitland…

“Porque arte um artista?” é o delicioso título de uma secção do seu blogue.  Remete-nos para algo crucial no processo criativo. Graça considera que “Aquilo que os artistas demoram anos a perceber e aceitar é que o processo é totalmente intuitivo […] Explicar isto tem sido aquilo que os críticos de arte teimam em fazer, e ano após ano vão sendo menos bem-sucedidos, porque não se explica por palavras ou construção de texto algo intuitivo. […] o mental dá ordens baseadas em crenças erradas e o intuitivo sabe sempre o caminho de casa”.

É isso. Graça (é) arte dos pés à cabeça.

 

Graça Paz nasceu no Porto em 1967 e estudou arte na Cooperativa Árvore, tendo-se formado em Design de Moda na mesma cidade. É no entanto como artista plástica que tem desenvolvido sempre a sua atividade. Quem? O Quê? Porquê? está patente na Rua Cândido dos Reis, n.º 78, no Porto, até ao final de abril.

 

 


Relacionados

O podcast do Renato 10

O podcast do Renato - episódio 10 - entrevista com Joana Almeirante

Continuar a ler Renato Ferreira   31.05.2019

Vem, amigo, vem

Uma canção de Renato Ferreira

Continuar a ler Renato Ferreira   30.05.2019

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário