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Contracapa, página 16

Ana Marinho da Silva 29.04.2019

Cruzei-me com o autor que vos trago hoje na sexta feira santa e por fruto de mero acaso: ia de viagem e no aeroporto decidi comprar um livro para evitar o aborrecimento das próximas horas.

Sempre fui de escolher o livro pelo título, mas a verdade é que o do livro que vos falo não me agradou. Porque é que o comprei? Porque entre a restante oferta, este foi o único que me conquistou pela sua contracapa. E porquê? Porque referia Auschwitz.

Só tive a disciplina de História até o 9º ano, uma vez que optei por seguir ciências no secundário. No entanto, a segunda guerra mundial foi sempre algo que me interessou pelos múltiplos acontecimentos paralelos que a acompanharam. Por essa razão, todos os livros que abordavam o tema eu comprava (e compro). Para além disso, vivi 6 meses na Polónia, onde parte de mim acabou por ficar lá, e sinto que isso ainda me aproximou mais deste momento da história. Foi por tudo o que referi que, no momento de escolher o livro que me iria acompanhar no próximo voo, escolhi João Pinto Coelho com “Perguntem a Sarah Gross”.

Uma história que se desenrola nos Estados Unidos com constantes analepses na Polónia. Duas cidades completamente distintas que se relacionam ao leitor através da personagem Sarah Gross.

Tudo começa com Kimberly Parker a deslocar-se até St. Oswald’s, um colégio de referência da aristocracia industrial da América, para uma entrevista de emprego com a diretora, Sarah Gross. (Acreditem: é difícil não gostar destas personagens.) Até que no capítulo seguinte se iniciam as analepses e as memórias de Oshpitzin, também designada como Oswiécim, e que ficou mundialmente conhecida como Auschwitz.

Acho que o início tão suave não nos prepara para a brutalidade do seu fim e acredito que foi isso que me fascinou neste livro. A verdade é que o livro acaba por ser dicotómico, no sentido em que demora muito a desenvolver e depois passa muito rápido (ou talvez tivesse sido apenas a minha vontade de querer saber mais). Mas, de facto, senti que os momentos iniciais vividos no colégio são lentos e um pouco desinteressantes, enquanto que o fim é atroz e nos faz derramar lágrimas aquecidas por corações entristecidos (o do leitor e do narrador).

Esther é a reviravolta do livro e fez-me questionar imensas vezes como é que, após tanto sofrimento, continua a existir um coração doce e a capacidade de confiar nas pessoas. É ela a razão de a narrativa ter voado e enquanto tinha demorado 2h e alguns minutos para ler as iniciais 250 páginas, precisei de metade do tempo para ler o restante, porque era interessante, perturbador, arrebatador. É, acima de tudo, um livro que nos dá vontade de viver e nos relembra da importância da vida. E tenho a certeza que esse era o objetivo do autor, assim como de todos os que escrevem sobre a segunda guerra mundial e os campos de concentração.

João Pinto Coelho foi uma coincidência feliz e fico satisfeita por ter escolhido um livro com um título pouco apelativo ao meu gosto. Faz-me pensar no quanto as aparências enganam. No fim, fiquei de coração cheio e partido; e a pensar nos corações para sempre partidos, mas para sempre bondosos dos milhares de vítimas daqueles campos.

“A noite caíra sobre o campo.
Amanhã, talvez outro dia voltasse a nascer.”

E nasceu.

Obrigada, João Pinto Coelho.

Na contracapa: “Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.
Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia: à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou. Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio Leya em 2014.”


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