viver

Buen Camino

Liliana Machado 04.01.2016

É preciso coragem para encontrar o teu caminho e, “quando a tua coragem te faltar, vai além da tua coragem”.

 

Fazer os caminhos de Santiago de Compostela é arrancar coragem das entranhas e para isso é preciso estar de mente aberta. Não é uma viagem qualquer, porque os trilhos não exigem de nós somente valentia física, mas sobretudo emocional. Há uma altura em que temos duas decisões a tomar: desistir ou continuar e aí entram em guerra as nossas ambições emocionais com a vontade física e depois de tomada a decisão restam-nos as suas consequências – boas e más. Se continuamos no caminho, tudo dói: os músculos, os pés, os joelhos, os ossos estalam e as bolhas teimam em fazer-nos companhia. Por outro lado, sentimos que vencemos os nossos próprios limites e que, a partir dali, somos novos seres, com coragem para enfrentar o mundo. Estamos renovados de corpo (apesar das maleitas) e alma. Perante os nossos olhos desfilam sucessivas imagens que fazem esquecer do que padece o corpo. Se desistimos, tudo dói: a alma chora; as expectativas caem a nossos pés massacrados; a nossa dignidade está mais desfeita do que as pernas e, ali mesmo, percebemos que somos uns meros desistentes. Por outro lado, estamos no conforto da nossa existência diária.

 

Estou em pleno caminho francês de Santiago de Compostela. Galgam-se montanhas. Toca-se o céu e sentimos aquele momento de comunhão com a natureza. Nada há que nos aproxime mais do nosso estado primitivo: temos chão, céu e o ar. Experimenta-se uma diversidade de clima e todos, a seu momento, são bem-vindos: ora chuva, ora sol e aquela brisa… ah aquela brisa que corre no rosto suado e cansado, queimado pelo sol ou pelo nevoeiro. Os caminhos mantêm o seu aspeto primordial, rudimentar, medieval. Há respeito pelo caminho, pela natureza. Não há lixo no chão. Cada peregrino, apesar de carregar o peso das suas mochilas e do cajado, ainda carrega a garrafa de água vazia; os papeis que envolvem a comida e tudo o resto que possa ser prejudicial àquela beleza natural. Tudo é cheio de história, cada pedra parece permanecer ali há séculos; os mosteiros antigos; casas a lembrar tempos idos, vistas apenas em gravuras dos livros de história, com telhados de colmo.

 

A minha paixão pelo caminho surgiu do famoso livro de um também famoso escritor (que alguns consideram banal e com filosofia barata; confesso que gosto de alguns dos seus livros e que isso faça de mim o que quer que seja). Li-o no segundo ano da universidade e disse a mim mesma: tenho de fazer isto. Esperei o tempo necessário. Amadureci a ideia e a minha própria personalidade. Depois de ouvir constantemente que fazê-lo era inexplicável, tinha de saber porquê (defeito de profissão). Após três anos a fazer os caminhos de Santiago (este é o terceiro ano consecutivo), sou eu que digo: é inexplicável, porque cada um tem a sua própria vivência daquele caminho. Somos todos diferentes e, portanto, cada um vive o caminho ao seu jeito especial. Não há motivações religiosas; promessas ou algo semelhante, apesar de Santiago ter sido um dos doze apóstolos de Jesus. Eu comecei por curiosidade e, satisfeita a curiosidade, tenho sempre vontade de partir de novo. Não existe segredo. Nem poções mágicas que entram em nós e operam transformações espirituais. Mas há algo ali. Escondido em cada trilho, em cada subida? Está, na verdade, escondido em nós e que, no limite, se revela e nos surpreende. Conhecemos um ser que, ao longo das nossas horas, vive reprimido a vida toda. Estar diante dele é como estar nu aos olhos do mundo, mas mais assustador ainda, porque de repente nos sentimos estranhos a nós mesmos. Naqueles trilhos colocamos toda uma vida. Há tempo para fazer análise. Ponderar. Questionar. Duvidar de quem somos. Do que queremos. Do que é indispensável. E, mais importante, de sabermos para onde queremos ir… que caminho seguir na vida.

 

Chegar a Santiago de Compostela e contemplar a majestosa catedral é sentir que, naquele momento, a nossa alma é do tamanho daquela empreitada. Aí, sendo crente ou não, entramos na catedral e choramos (ainda que silenciosamente), porque, tal como Santiago, o apóstolo guerreiro, lutamos com os nossos demónios para chegar até ali e estamos inteiros. Tudo dói, trazemos feridas das batalhas, mas somos gloriosos; grandiosos; vencedores.

 

Deixo-vos a sugestão de um filme que, para quem ainda não partiu à aventura a meio deste relato, vai querer fazê-lo de certeza depois de assistir. The Way – um filme fiel à essência do Caminho de Santiago.   

 


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