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Viajar no futuro

Ricardo Jorge Pinto 04.01.2016

Numa viagem à Toscana com os meus dois filhos adolescentes, no meio do

 

emaranhado de ruas de Siena, subitamente o meu telemóvel ficou sem

bateria. A Marta e o Ricardo II não conseguiam esconder a aflição, ao

perceberem que estávamos sem GPS.

 

Naquela noite, os meus filhos devem ter concluído que tínhamos ficado

perdidos para todo o sempre, ou até sermos encontrados por uma equipa

de salvamento que nos levaria de volta a casa com sofisticado

equipamento de georreferenciação.

 

Quando eu comecei a viajar de mochila às costas, de Interail, pela

Europa, nos anos 80, os mapas em papel eram o meu “kit de

sobrevivência”. Para as novas gerações de viajantes, o sentido de

orientação e de localização geográfica organiza-se em aplicações de

telemóveis inteligentes.

 

A primeira vez que fui a Siena, muito jovem, cheguei arrastado pelas

páginas do livro “A room with a view”, de E.M. Forster, hipnotizado

pelas imagens das planícies toscanas, de vinhas sem fim, que tinham

crescido na minha imaginação de leitor. Tive de procurar uma das

entradas na cidade antiga num velho mapa emprestado pelo meu pai e que

estava tão desatualizado que muitas das estradas que fui encontrando

não existiam ainda nos contornos das suas páginas amarelecidas. O

hotel onde fiquei em Siena foi descoberto numa edição de um jornal

regional, quando cheguei a Florença, num anúncio de meia página,

prometendo quartos asseados com vista para a praça central da cidade,

muito bem ilustrado com um desenho de telhados de casas medievais

encavalitadas. A reserva do quarto foi feita numa cabina telefónica

que procurei debaixo de calor intenso, quando deixava Florença,

desenterrando moedas de milhares de liras nos bolso e tentando

decifrar o italiano debaixo da pronúncia cerrada do rececionista.

 

A primeira vez que os meus filhos pediram para ir a Siena aconteceu

depois de terem descoberto o Palio de Siena, nas redes sociais

digitais, que partilhavam um ‘site’ que divulga em tempo real a

velocidade dos cavalos na célebre corrida anual na Piazza del Campo.

Ficámos num hotel nos arredores da cidade aconselhado pelo

Tripadvisor, onde eles selecionaram a categoria de hotéis amigos de

famílias com jovens, depois de terem filtrado as opções pelo tipo de

comentários que iam lendo. A viagem desde Roma foi monitorizada por

uma aplicação de mapa eletrónico, que ia atualizando a hora de chegada

e que mostrava as várias opções de rotas e avisava sobre eventuais

engarrafamentos de trânsito. E todas as fotografias do percurso foram

partilhadas para os amigos por Instagram.

 

A experiência de viajar mudou com o mundo digital. Hoje, nenhum

destino é já exótico, porque antes de o visitarmos podemos conhecê-lo

nas imagens do Google Street. As câmaras fotográficas mostram-nos os

destinos em vários ângulos e perde-se a surpresa de um local que

apenas tínhamos imaginado em sonhos.

 

Quando visitei pela primeira vez Los Angeles, nos anos 90, marquei o

hotel numa agência de viagens em Nova Iorque, cujo funcionário

diligentemente escreveu a morada num envelope com o ‘voucher’ para a

estada. A referência parecia fácil: Wilshire Boulevard, umas das ruas

de referência da cidade, facilmente detetável no mapa que me guiaria.

E uns minutos depois de ter saído do parque de estacionamento dos

‘rent-a-cars’ do aeroporto de Los Angeles, esse mesmo mapa revelava-me

que deveria estar no local que procurava. Ingenuamente, logo que

avistei uma placa anunciando Wilshire Boulevard, estacionei o carro,

preparado para procurar o hotel, a pé. Na verdade, estava na rua

certa. Mas o hotel estava a 15 quilómetros de distância, porque

Wilshire Boulevard estende-se por mais de 25 quilómetros ao longo da

cidade. E, afinal, as palmeiras frondosas no jardim do hotel, que eu

tinha visto em imagens num escritório escuro de Nova Iorque, eram

apenas um arbustos raquíticos, escurecidos pelos tubos de escape dos

automóveis que enchiam de barulho os quartos dos clientes.

 

Este erro básico de avaliação nunca aconteceria na era digital. O

hotel teria sido escolhido nos fóruns de discussão, onde os

utilizadores deixam os seus comentários horas depois de fazer o

‘check-out’. As imagens dos quartos seriam colocadas pelos clientes,

mostrando todos os pormenores (incluindo a humidade nas paredes, se

existir). A reserva seria feita depois de consultados vários portais,

comparando preços e modos de pagamento. E a morada do hotel seria

enviada por mail, para ser georreferenciada pelo GPS que nos levaria

até ao exato local da sua entrada.

 

No paradigma da individualização comunicativa, a viagem passou a ser

uma experiência cada vez mais pessoal e intransmissível. As escolhas

de destinos, modos de transporte, hospedagem, lugares de visita podem

ser formatadas de maneira cada vez mais singular, respondendo às

expetativas particulares de cada um.

 

Se tudo correr bem, apenas ficarão os relatos históricos das

excursões: uma tipologia de viagem turística massificada, em que se

juntava num mesmo autocarro, ou avião grupos de pessoas tão diferentes

entre si que por vezes era um milagre chegarem todos vivos ao fim do

trajeto. A excursão estava para o turismo como os ‘mass media’ estavam

para a comunicação: o mesmo produto igual para todos, procurando

nivelar a experiência pelo grau mais elementar, de forma a ser aceite

por todos.

 

Na era do turismo digital, as excursões ficarão para quem não tem

capacidade de escolha, como os média massificados permanecerão para as

audiências mais impreparadas para tomar decisões sobre o que

pretendem. Provavelmente, o turismo terá o seu “digital divide” – a

cisão que dividirá as sociedades entre os info-ricos e os info-pobres,

entre os que saberão usar as novas ferramentas para obter o que

realmente lhes interessa e os que se limitarão a permitir que alguém

decida por eles os museus a visitar.

 

Na minha mais recente visita ao Louvre, em Paris, depois de lá ter

estado uma dezena de vezes, descobri um museu que parecia nunca ter

conhecido. Isto, porque, na semana anterior, descarregara no meu

‘tablet’ uma aplicação que mostrava obras do Louvre que geralmente

passam despercebidas aos olhos do visitante. Nessa aplicação, existem

imagens tridimensionais e manipuláveis, permitindo conhecer a parte de

trás dos quadros, onde existem inscrições surpreendentes. Para cada

sala do museu, há comentários de especialistas, que contam histórias

sobre as peças em exibição. E a visita virtual permite, finalmente,

descobrir o caminho mais rápido entre cada setor do Louvre, os

melhores horários para os visitar e, até, a posição dos WC, no caso de

alguma aflição.

 

A certa altura da minha nova visita ao museu, no meio da confusão

provocada pelo nervosismo de um numeroso grupo de turistas na busca do

quadro da Mona Lisa, dei por mim a suspirar pelo momento em que, na

tranquilidade do meu quarto, tinha conhecido aquelas mesmas obras. De

que, ainda por cima, nem sequer me podia aproximar, muito menos

virá-las do avesso para olhar as inscrições na parte de trás da tela…

 

Mas, quando me aproximei do quadro “La belle ferronnière”, num momento

de maior sossego no museu, observando os golpes de pincel do pintor

(cuja identidade ninguém conhece), a delicadeza dos traços nos lábios

da alegada amante de Francisco I, senti que nada substitui a

experiência de estar nos sítios, de viajar como sempre se viajou:

sentindo os lugares como se fosse sempre a primeira vez.*

 

*Este texto foi divulgado previamente na revista Turismo’15


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