viver

Escritaria

Liliana Machado 04.01.2016

O relógio marcava 08h40. O carro estava, finalmente, estacionado. O motor desligou-se. Suspirei fundo. O dia estava, ainda, de olhos semicerrados e as grandes decisões já tinham tomado conta de toda uma história. O meu olhar bem que tentou fixar-se no horizonte, mas esbarrou num cenário totalmente poético.

Imaginem letras e palavras soltas pelo chão, a voar na rua, tal como folhas de outono que dançam ao sabor do vento. Coloridas. Doces. Quentes. Palavras que balançam na rua em movimentos sedutores. Desfilam atraentes.

Acontece nas ruas de Penafiel.

Há letras, palavras, frases, poemas, pequenas histórias espalhadas pelas ruas. Ornamentam o chão e as paredes e, súbito, toda uma cidade parece um livro gigante.

Sorri. De modo imprevisto, sou personagem neste livro. A minha história matinal, escrita com a fúria da mestria, não era um acaso. Estava escrita. Predestinada. E foi ali, na companhia das letras, que a descobri. Nasci para ti. Para te dedicar toda uma vida de talento nascido na ponta dos dedos.

E, no meio da chuva, saí do carro e segui em frente. Desfilei atraente como as palavras no meio dos restos da Escritaria de Penafiel (festival anual de literatura). 

E tudo era silêncio. As palavras à minha volta falavam por si.

 


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