pensar

Ouçam, 'Phoenix'

Ana Marinho da Silva 06.10.2019

Desde que me lembro sempre gostei de aprender de uma maneira muito simples: a ouvir. Este gosto fez com que, inevitavelmente, tivesse necessidade de me aproximar de pessoas que soubessem falar; pessoas que me enriqueçam, que me criem dúvidas, que me alimentem a curiosidade. Talvez seja um defeito meu, mas canso-me de quem não sabe manter a minha atenção depois de a obter. Ao longo da minha curta vida de 23 anos cruzei-me com pessoas extremamente interessantes e outras extremamente desinteressantes; pessoas com um enorme potencial, mas que murcharam arrastadas por quem tem menos potencial; pessoas que desabrucharam por perceberem que precisavam de mais; pessoas que falam muito, mas dizem pouco; pessoas que falam pouco, mas dizem muito; e pessoas como eu que gostam de ouvir (e de falar quando consideram que a partipação será um contributo válido).
 
Este meu gosto pela aprendizagem fez com que me tornasse numa ótima ouvinte. Gosto de ouvir tudo o que as pessoas têm para dizer e depois passo por um processo de filtragem de informação, decidindo aquilo que considero enriquecedor para mim e aquilo que considero inútil. Por norma, depois desse processo, escrevo as minhas opiniões e conclusões da informação que absorvi. Felizmente, tenho tido a sorte de me rodear de pessoas extremamente enriquecedoras, cultas, curiosas e informadas; e é aqui que quero chegar. Todo este contexto inicial serviu para me guiar até uma conversa que tive hoje com duas das pessoas que mais me cultivam e desafiam intelectualmente.
 
Juntos fomos ver o filme "Joker" realizado por Todd Philips e protagonizado por Joaquin Phoenix. Já tinha lido críticas muito positivas, o que contribuiu para que as expectativas estivessem bem altas... e não desiludiu. Nuno Markl escreveu (e muito bem) que "está aqui um filme capaz de inspirar "gente sã" a estender a mão a "lunáticos" antes que seja tarde demais", porque o Joker deste filme é muito mais que um personagem da DC comics, é (citando novamente Markl) "um de nós". Pessoalmente, considero que não existe melhor forma de expressar a importância deste filme como o humorista/radialista português fez. É urgente que as pessoas o vejam e o entendam não como mais um filme sobre uma personagem de banda desenhada, mas sim como um filme que aborda doenças mentais. Um filme que alerta para a urgência de compreensão; e foi isto que gostei de ouvir por parte das pessoas que me acompanharam e que me fez escrever este texto.
 
É inegável que os cidadãos comuns têm dificuldade em aceitar pessoas com qualquer tipo de doença mental, como se recusam a incluí-las e a lutar por uma sociedade igualitária. Acredito que todos nós já nos cruzamos com doentes mentais na vida e, se isso ainda não aconteceu, irá acontecer. Reparo que nesses encontros ocasionais existe sempre alguma tensão (típica da sociedade preconceituosa) e questiono-me porquê. No final do filme e após a conversa que tive chego à conclusão que a resposta é desinformação (e devo admitir que só quero considerar esta como a única resposta possível). Ao longo do tempo foi criado o estigma de que os doentes mentais deveriam estar longe de quem não tem qualquer problema, para se "tratarem". São constantemente colocados de parte, olhados de lado, desvalorizados, humilhados. As pessoas esquecem-se que eles são "um de nós", mas está na altura de perceber que esse pensamento tem consequências, muitas vezes irreversíveis, para quem sofre desta exclusão constante. Esta é uma das mensagens presentes em todo o filme e que acaba por incomodar a audiência, porque levanta um debate interior, desperta um confronto de dilemas morais que as pessoas se tinham recusado durante muito tempo a considerar. Uma das pessoas que me acompanhou na sessão disse que muitas pessoas saem deste filme como se levassem uma chapada de luva branca, porque percebem "sinto empatia por um psicopata, por um assassino; e agora?". É importante que as pessoas despertem para este tema e é por isto que considero o "Joker" um filme obrigatório para todos - as pessoas com este tipo de problema continuam a ser incompreendidas e o filme retrata isso na perfeição.
 
Joaquin Phoenix abraça este Joker para mostrar um homem frágil, que duvida da sua existência, que se sente desorientado num "mundo cada vez mais louco" (uma das falas no filme). É triste perceber que esta personagem, Arthur Fleck (aka. Joker), só consegue encontrar sentido para a sua existência quando se introduz no mundo do crime. Introdução essa que se deve a um conjunto sucessivo de acontecimentos que demonstram perfeitamente a loucura deste mundo. Ele sente-se só num mundo que faz questão que ele esteja só. 
 
Deve ser horrível querer ser ouvido e ninguém querer ouvir, ninguém querer saber. Isto leva-me ao início deste texto: classifiquei-me como uma ótima ouvinte, mas este filme e a conversa que tive posteriormente fizeram-me repensar a minha qualidade como tal. Será que ouço o suficiente? E se não ouço os gritos de ajuda de quem precisa? E se não compreendo a mensagem escondida por trás das palavras ditas? E se aquilo que ouço não corresponde àquilo que foi dito? Saber ouvir para aprender é importante, mas mais importante ainda é aprender a saber ouvir.
 
Fiquei a pensar nisto e achei importante partilhar convosco a urgência de saber ouvir, de compreender quem se sente incompreendido, de incluir quem se sente excluído, de perceber que doentes mentais são "um de nós". Não podemos deixar que duvidem da sua existência, que se sintam sós. Ouçam a história das pessoas na totalidade e não tenham medo de lhes dar a mão. Não as julguem pelo que aparentam. Todos precisaremos de ajuda em algum momento da nossa vida, não a neguem a quem precisa agora.
 
Todo este texto resulta de uma cena em específico (SPOILER): quando ele tenta falar com a assistente social, mas ela continua a fazer as mesmas questões de semana para semana. Ela não ouve, quando a sua função se resume a saber ouvir. Isso levanta muitas questões ao espectador e também uma profunda mágoa pela desconexão emocional de quem trabalha com quem necessita de estabelecer essas conexões.
 
Para terminar, vejam o filme "Joker" que vale bem a pena, criem empatia com o protagonista e desfrutem da brilhante performance de Joaquin Phoenix. (Ah, e leiam a crítica do Nuno Markl que para mim sumariza na perfeição a minha opinião sobre o filme).

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