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O eremita e a internet

Renato Ferreira 27.12.2019

O eremita e a internet

O que é a realidade? Partindo do princípio de que rejeitamos o solipsismo, a realidade é uma amálgama de consciências que vive numa bola a que chamamos de planeta Terra. Estamos quase a chegar aos 8 mil milhões de pessoas. Cada uma delas sobrevive à custa de uma inteligência que tenta adaptar-se, o melhor que sabe e consegue, às suas circunstâncias. Feliz ou infelizmente, as circunstâncias com as quais cada ser humano se preocupa (e nas quais se ocupa) é uma ínfima parte do total de circunstâncias. Tirando figuras de relevo mundial, cujas acções e/ou decisões abarcam – algumas vezes – a totalidade do planeta, o grosso dos cidadãos (o cidadão comum, como é conhecido) lida no seu dia-a-dia apenas com uma esfera de alcance diminuta. A internet veio aproximar das mãos de cada um de nós o podermos ter o poder de alcançar, potencialmente, a totalidade. O mundo. A aldeia global. A humanidade.

O filtro que decide que conteúdos se tornam virais é difuso, obscuro e imprevisível, de certa forma. Ainda há os filtros considerados normais, pelo menos para a nossa época, que são os órgãos de comunicação social, ou as igrejas cujos seguidores absorvem melhor o que vem dos superiores hierárquicos dessas organizações, e poucos mais. Se há uma realidade comum a todos os cidadãos do mundo, e há de facto uma, ela é parcialmente recebida a partir: quer da visão que os meios de comunicação dão em cada país desse mundo, quer da procura individual que cada cidadão interessado faz no seio da casa global comum da humanidade que é a internet (nos países onde ela é livre).

Assim sendo, é natural que se pense em quem detém o poder do que é veiculado quer nos media quer na internet. Ora, na internet tudo vai lá parar. Basta querermos partilhar pensamentos nossos (como este texto), que eles vão lá parar. Mas podemos pensar também como transformamos os nossos pensamentos em mais do que uma gota num grande oceano. Não pensando para já no perigo e responsabilidade de ser mais do que uma gota, a verdade é que alguns pensamentos de alguns seres humanos transformam-se em ondas que agitam o oceano, fazendo com que muitas e muitas gotas desviem o seu percurso habitual, a sua trajectória, que faziam antes dessas ondas chegarem. Ora, onde de facto se cria essa onda (ou ondas)?

Antes da parte da comunicação de uma (ou várias) ideia(s), essa ideia-que-ainda-não-é-onda surge na mente de alguém. É um “trabalho” inicialmente solitário, sem o ser completamente. Apesar da ideia surgir na cabeça de um só de nós, o que passa na nossa cabeça é um fluir incessante de ideias e imagens que, tirando casos extremos, acontece pela dinâmica de socialização do indivíduo. Ou seja, o que cada cabeça cria é resultado, inevitavelmente, das ideias que outros lhe passaram, das experiências pelas quais outros passaram, ou, mesmo que surja a partir de experiência própria, cada um de nós – não sendo uma ilha, como diz o cliché – vê-se a si mesmo, mesmo quando sozinho, como um ser no meio de muitos. Este relacionamento de nos sabermos parte integrante de um todo grande de outros parecidos connosco é o que permite a comunicação, já numa fase posterior, e que inicialmente, no meu entender, permite a criação. Porque a criação é, na minha opinião, na sua génese, algo que queremos oferecer ao mundo, aos outros, ao outro. Não sabemos, porque não o podemos testar em laboratório (e ainda bem), se um ser humano só, e que estivesse só desde sempre e para sempre, teria a capacidade de criar fosse o que fosse. O outro funciona como base de impulso para que queiramos criar originalidades dentro de nós, porque queremos dar de nós aos outros. Viva o outro. Só a partir da nossa relação com esse outro - que não eu - é que eu consigo ser eu. Eu encaixo-me na realidade buscando a minha singularidade perante todos os outros com quem me vou cruzando. É por ver e sentir o outro que eu me sinto em mim. É por presenciá-lo que eu fruo a minha presença e a minha passagem no cenário da vida.

Até o eremita mais isolado quis isolar-se dos outros: ou seja, a sua acção é relativa ao outro, é uma resposta ao outro e foi a partir do outro que forjou a sua identidade e criou a sua vontade. E mesmo que a sua vontade seja a de afastar-se, se calhar é ele quem mais possibilidades terá de criar as tais ondas. Porque terá mais tempo para pensar e formulá-las. E depois, porque agora existe a internet, bastar-lhe-á estar longinquamente numa cabana com…internet…

Já estou a imaginar o eremita a clicar nas teclas do seu computador, longe de tudo e de todos, enquanto vai cantarolando a frase escrita por Noel Gallagher para a canção “Don´t look back in anger” (canção que foi feita numa altura em que a internet ainda não estava disseminada por aí):

 

“I’m gonna start a revolution from my bed”…

Bom ano de 2020! Quanto a 2019... Don´t look back in anger...


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