viver

Reminiscências

 04.01.2016

Se há alturas em que me rendo à nostalgia, a chegada do verão é sem dúvida uma delas. Fui há pouco à varanda e dei com um vizinho a colocar cuidadosamente as barras de tejadilho no carro, cenário que me transportou para a década de 80, altura em que ainda era criança. Recordo com saudade os dias de viagem para as tão aguardadas férias no Algarve. O caminho era um misto de arraial e de peregrinação: carros, camionetas e auto-caravanas seguiam em procissão pelas estradas nacionais, num pára-arranca que tornava a viagem mais enfadonha que o discurso do presidente da república. Debaixo de um calor infernal presenciavam-se das mais variadas ocorrências; desde bicicletas a soltarem-se dos tejadilhos, a passageiros de autocarro pendurados na janela a bolçar o pequeno almoço sem se aperceberem do casal da mota que os ultrapassava pela berma. Enfim, um road show de fenómenos do Entroncamento num itinerário que separava o stress e a rotina, da paz e tranquilidade. Ou vice-versa. Dias que dificilmente voltarão.

 

Os preparativos para a viagem eram cuidadosamente tidos em conta algumas semanas antes da partida, para que nada falhasse no dia D. Na tarde anterior, o cheiro a fritos (para a merenda) e cera de depilar, proliferava nos lares tuga. Os salões de cabeleireiro e as barbearias apinhavam-se para uma permanente ou um corte à craque da bola. No Continente, esvaziavam-se as prateleiras de líquidos para radiador, latas de óleo, manómetros de medida e outros artigos de décor automóvel. Na secção de vestuário experimentava-se a indumentária a rigor; das t-shirts impressas com a palavra Algarve em lettering sofisticado, acompanhada pelo tradicional galinho de Barcelos, nascia uma manifestação artística pautada pela liberdade de criação e inspirada pelo garrafão de Jeropiga que rompia com qualquer cânone (quais vanguardas).

 

Colocadas as ditas barras sobre o tejadilho, prendia-se o colchão, o televisor e o leitor de cassetes, e... "ala, que se faz tarde!...". E perguntam os mais novos: - O colchão??? Nem mais - o colchão. Nos quartos de muitas das casas que se arrendavam para férias, podíamos encontrar apenas o estrado da cama. Noutros nem isso. Pelo sim, pelo não, levava-se o Colunex, até porque as costas da avó não dispensavam aquele "luxe", ainda que tivesse que dividi-lo com a filha e o netinho.

 

Após duas, ou três tentativas falhadas para dar inicio à odisseia -  pois ficava sempre algo esquecido que havia que recuperar, o carro lá acabava por arrancar, perdendo-se no horizonte por entre uma nuvem de fumo negro ao sibilar estridente do tubo de escape a roçar nos paralelos.

 

Ao longo do percurso vislumbravam-se, na retaguarda de alguns habitáculos, cãezinhos de peluche cuja cabeça suspensa por uma mola agitava em gesto de afirmação ou negação, consoante a guinada do volante, ou o ângulo de inclinação da via. Noutros, uma mão em plástico presa ao vidro por uma ventosa, agitava como se estivesse a dizer adeus aos passageiros do carro de trás num movimento proporcional à taxa de alcoolémia do condutor. Uma despedida infindável, eternizada pelas extensas filas de trânsito.

Trazidas pelo vento, de forma intermitente, as vozes distorcidas de Marco Paulo e de Cândida Branca Flor, à desgarrada, conferiam uma espécie de banda sonora à jornada, numa disputa de vamos lá ver quem é que põe o rádio a tocar mais alto, num ensaio para um conceito que mais tarde se viria a estender e massificar - o tunning.

Televisores eram objectos que se viam com alguma frequência no topo dos automóveis. Expostos à intempérie e às altas temperaturas do Alentejo, os volumosos aparelhos mostravam a sua rigidez num verdadeiro teste à resistência e durabilidade. O Sr. Tavares bem resmungava alertando para os perigos associados ao transporte do dispositivo no tejadilho, mas nenhum argumento era suficiente para demover a Dona Mariazinha de se prostrar diante da caixa que mudou o mundo à hora do Roque Santeiro. Ah!...E que ninguém tossisse! O perigo espreitava cada família Tavares de viagem por estradas lusas. Uma travagem mais "coise" e tínhamos um quarto montado em plena Nacional 1.

Ao passar a Mealhada, gera-se a primeira das muitas discussões em viagem, quando D. Etelvina rasga o silêncio com uma dúvida: - Estava aqui a pensar se terei desligado o ferro Ao volante, Tavares que já vinha a "passar pelas brasas" há mais de um quarto de hora (tal era a "bicha") retorque em tom percutido: -Ohquecar@#"o!!! era só o que me faltava!

Mariazinha acaba por acalmar os ânimos relembrando que foi ela quem o desligou e meteu na mala do carro embrulhado em papel de jornal (com a base ainda incandescente).

Enquanto isso, e entre sonos, Joãozinho vai testando a pontaria com a bisnaga nova, despejando jatos de água na orelha do pai, que acha piada e sorri através do retrovisor enquanto ultrapassa um camião TIR com semi-reboque. Retrato de uma família feliz.

Aquando da habitual paragem para esticar as pernas na área de serviço de Canal Caveira, procedia-se a uma verdadeira inspecção ao veículo, por vezes mais apertada que as dos centros da Controlauto. Media-se a pressão dos pneus, verificavam-se os mais diversos níveis, abria-se o capot para extraír o fumo e extinguir as chamas, e lá se vertia o líquido para o radiador. Apertavam-se também duas ou três "porcas" que, devido ao peso excessivo e ao calor iam "dando de si". Os cafés que serviam de apoio àquela área de descanso, eram tudo menos de descanso. Tão barulhentos que se saía de lá mais cansado do que se entrava.

...E lá se chegava ao destino. Mais mortos do que vivos, é certo, mas valia bem a pena. Não eram raras as vezes em que se abria a porta da casa e se encontrava um cenário em muito semelhante a um quartel do ISIS após a passagem de um drone. -O que vale é que trouxe a "lexibia" e o Ajax. Dizia Mariazinha em jeito de alívio, enquanto se ajoelhava em pose de atleta na linha de partida.

Terminadas as férias, a tradição repetia-se no sentido inverso: "mais uma voltinha, mais uma viagem". Ao chegar ao Porto, o corpo já pedia mais uma semana de descanso, mas isso é outra história.


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